terça-feira, 8 de agosto de 2017

E OS OLHOS JÁ ESTAVAM PERDIDOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Sentado em uma cadeira incômoda, Daniel pensa que nem para morrer tem sorte. Espera pela partida de sua tia, que pode dar-se a qualquer momento. Ela está na UTI e ele em uma visita só-para-constar. Enfisema pulmonar. Não é uma doença genética. Até nisso a família lhe foi falha. Mesmo assim, foi visitar a insignificante tia, anda tão pesado que não precisa carregar mais as acusações maternas de negligência com os parentes.

            Sente uma indiferença libertadora frente à morte. Sobretudo à sua. Não há coisa alguma que ela possa tirar-lhe, na verdade o libertaria de uma série de fracassos e frustrações. Daniel pensa no Dilúvio, se fosse mais do que um arroio, poderia resolver seus problemas ali mesmo, afinal passa bem em frente ao hospital. O Guaíba seria uma boa solução, sendo rio ou não, mas falta-lhe energia para andar até lá.

            Desanimado, pensa na rotina de trabalho humilhante que tem pela frente, escrever textos inúteis sobre esportes pouco importantes e que certamente serão severamente criticados pelo chefe de redação. Ir para casa não é melhor; enfrentar a ausência afetiva da mulher, que tem um amante ou procura por um. O filho, único motivo de alegria que sobrara, em intercâmbio na Europa, já dera sinais que não voltaria tão cedo.

            Daniel levanta-se do banco, fim de visita e a tia continua com um fio de vida. Ele deseja que não dure mais uma semana, senão será forçado a uma nova encenação de apreço familiar. Olha para a porta de saída do hospital e vê o dia ensolarado zombar de sua insignificância. Sente-se um afogado debatendo-se por um sopro de vida.

            Tudo ainda muito branco. Abre os olhos, não é o único que olha. Uma enfermeira o olha com preocupação, mas tem certeza de que há um par de olhos a mais na sala onde estão só os dois. Esforça-se para sentar e tem a leve impressão de fazer isso com mais facilidade do que poderia supor.

─ Calma, levanta devagar senão o senhor pode ter uma nova vertigem.

─ Eu não sei o que houve. Estava saindo do hospital.

─ O senhor desmaiou próximo à recepção. Mas sua pressão está bem e a glicose também. Sem qualquer alteração.

            Daniel quer sair dali, mas também tem a esperança de estar com algum grave mal. Surpreende-se olhando para os seios da enfermeira que o ajuda a se levantar. Ela percebe seu olhar.

─ Bom, já estás bem melhor. Tem uma lancheria no segundo andar, passa lá e come alguma coisa. Se tiveres um novo desmaio é melhor consultar um médico.

            O que mais perturba Daniel é perceber que não olhou para os seios dela, o que de fato ocorrera é uma nova percepção, algo que ele não consegue definir bem, ele viu a si mesmo olhar para os seios dela como se fosse apenas um observador da cena.

            Anda até o carro sentindo-se fora de esquadro. É como se não fizesse parte do mundo, mas ao mesmo tempo transita pela vida com a mesma desenvoltura de sempre. A mão de sempre coloca a chave na ignição, o pé esquerdo na embreagem. Ambos estranhos. Antes de partir, olha-se no espelho retrovisor e se assusta. É como entrar em uma daquelas cabines para provar roupas nas lojas. Lembra-se de algumas que tinham espelhos em duas paredes paralelas que multiplicavam a imagem ao infinito. Ele se olha e vê a si e a alguém que o olha e ele se vê nesse outro olhar. Aterrorizado, Daniel fecha os olhos e encosta-se no banco com força. Bateu a cabeça quando desmaiou no hospital, ele pensa procurando encontrar uma explicação. Algo em seu cérebro se soltou e apagou. Ou se acendeu. É surpreendido pelo toque do próprio celular.

─ Daniel, por onde anda? A gente tem que fechar as pautas da próxima edição.

            Silêncio, não sabe o que responder ao chefe. Uma mão que já não reconhece, engata a marcha e, com a ajuda de um corpo que fica cada vez mais estranho, dá partida ao carro em direção à redação do jornal.

            Olha a tudo e todos com um espanto que não é seu, ele mesmo só se espanta com a estranheza do corpo e com voracidade do outro olhar. Meia hora passada na frente do computador, sem uma palavra escrita. Daniel precisa produzir um texto sobre uma partida de futebol entre dois times do interior. Nunca apreciou futebol ou qualquer outro esporte, durante longo tempo sonhou em ser repórter investigativo, agora, com dez anos de trabalho pela frente ainda, sonha apenas com a aposentadoria.

            Decide escrever sobre o inusitado de suas sensações, o editor chefe que espere. Qualquer coisa, alegaria um mal-estar e iria embora mais cedo, mas quando se posiciona para digitar, vê os olhos lerem com avidez o material de suporte que recebeu para escrever o pequeno texto. Trata-se de uma lista de acontecimentos comuns em qualquer jogo, marcados pela contagem de tempo. Aos 12 minutos, escanteio; aos 23 minutos, reposição da bola; aos 30 minutos falta. Daniel percebe uma animação que o transcende e os dedos, que não lhe pertencem mais, digitam um texto de mais de 400 caracteres e o enviam ao chefe de redação.

─ Que piada é essa Daniel? Está tentando derrubar nosso cronista? Eu te peço um texto de 50 a 70 caracteres, apenas uma nota! E tu me vem com uma crônica! Volta lá e pratica a salutar arte do corte.

            Antes de voltar para a sua mesa, o seu chefe volta a chama-lo:

─ Mas tenho que admitir, é o melhor texto que já escreveste. Parabéns! Usa esse teu talento no próximo grenal, aí sim te consigo espaço.

            Grenal? A vontade de morrer de Daniel é substituída por raiva, uma raiva de algo dentro de si que não reconhece e que usurpa seu lugar perante os outros. Vai para casa dirigindo o carro. Sim, ele. Não a coisa que o habita. Pela primeira vez em muito tempo, dirige com energia e determinação.

            O que pode fazer? Procurar um analista? Um terreiro de umbanda? Pesquisar no google? Chega em casa e encontra sua mulher na cozinha preparando a janta. Desleixada, como de costume, o olha com uma expressão de tédio. Logo observa seu olhar de gula percorrer o corpo dela. Ela tagarela sobre sua rotina de advogada, os processos em que trabalha e os clientes que tem. Daniel permanece calado porque a boca ainda lhe pertence, mas percebe um interesse inédito pelos assuntos da mulher. Perdera os ouvidos.

            À noite, na cama, começa a refletir na guerra que vive. O inimigo o pegou de surpresa e conquistou vários territórios de assalto, agora ele tem que pensar em como retomar seus domínios. Não gosta daquela presença, precisa lutar por si e por seu corpo. Pela manhã, Daniel fica observando a esposa se arrumar para o trabalho, sente atração pelo corpo de mulher de meia-idade.

            Na semana seguinte, Daniel é expectador de sua rotina de trabalho, toma cafezinho com os colegas, discute ativamente as pautas da seção de esportes e escreve com prazer os textos que lhe são exigidos. Luta para retomar o controle, tenta cruzar os braços, imobilizar os dedos no teclado, mas tudo o que consegue é um ou outro erro ortográfico, nada mais. Decide retornar ao hospital, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que começou lá. Talvez um espírito, talvez um demônio tenha se apossado de seu corpo e mudado sua trajetória de vida. Talvez uma máquina de radiografia defeituosa tenha vazado radiação, alterando seu DNA.

            Daniel entra no carro, não sabe o que fará quando chegar ao hospital, mas sabe que deve ir para lá. Estaciona na garagem de seu prédio, sobe os seis andares de elevador. Abre a porta, a mulher novamente está na cozinha, vai até ela e dá um apaixonado beijo. Fazem sexo ali mesmo, como não acontecia há vinte anos. No início ela resiste um pouco, mas depois corresponde com igual desejo.

            Na manhã seguinte, a esposa abre os olhos e vê o marido já acordado. Aninha-se ao corpo dele e fala:

─ Daniel, eu ainda te amo. E me surpreendo com isso.

Ele beija os cabelos dela e sorri, já está começando a se acostumar com esse nome.

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