sábado, 4 de novembro de 2017

CAMINHOS



Taiasmin Ohnmacht
 
 
 


Olhou para o céu e viu uma estrela cadente. Não havia pedidos a serem feitos. Lembrou o jornal da noite anterior. Vários meteoros se aproximariam da terra. O mundo segue seu próprio script, não se interessa pelos dramas humanos.

Precisava andar até o carro e o ar da noite era congelante, mesmo tão bem agasalhada sentia a aragem cortar suas bochechas. Lembrou-se do quarto quente que acabara de deixar. Queria voltar, queria partir. Já sentia saudade do cheiro dela em seu corpo. Tomou um banho quente antes de deixar o apartamento e o sabonete roubou-lhe os restos da paixão. Se retornasse, a encontraria disposta a amá-la mais uma vez? Nada disso interessava, pois tinha outro destino, mesmo sabendo que o único olhar que importa é o de desejo.

            Arrancou o carro com a determinação dos que não pensam, seguindo apenas o caminho já traçado. Não havia arrependimentos, nem pelo quarto deixado, nem pela estrada escolhida, só a vaga sensação de que a vida é mais complexa do que lhe ensinaram um dia.

            Abriu a porta para a acolhida de seu lar. Os filhos pequenos a receberam em festa. Com um no colo e o outro segurando sua perna, foi até a sala e cumprimentou seu marido com o beijo rápido dos conviventes de longa data.

- Eu fiz janta. Comeu fora ou aqueço a comida?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

E OS OLHOS JÁ ESTAVAM PERDIDOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Sentado em uma cadeira incômoda, Daniel pensa que nem para morrer tem sorte. Espera pela partida de sua tia, que pode dar-se a qualquer momento. Ela está na UTI e ele em uma visita só-para-constar. Enfisema pulmonar. Não é uma doença genética. Até nisso a família lhe foi falha. Mesmo assim, foi visitar a insignificante tia, anda tão pesado que não precisa carregar mais as acusações maternas de negligência com os parentes.

            Sente uma indiferença libertadora frente à morte. Sobretudo à sua. Não há coisa alguma que ela possa tirar-lhe, na verdade o libertaria de uma série de fracassos e frustrações. Daniel pensa no Dilúvio, se fosse mais do que um arroio, poderia resolver seus problemas ali mesmo, afinal passa bem em frente ao hospital. O Guaíba seria uma boa solução, sendo rio ou não, mas falta-lhe energia para andar até lá.

            Desanimado, pensa na rotina de trabalho humilhante que tem pela frente, escrever textos inúteis sobre esportes pouco importantes e que certamente serão severamente criticados pelo chefe de redação. Ir para casa não é melhor; enfrentar a ausência afetiva da mulher, que tem um amante ou procura por um. O filho, único motivo de alegria que sobrara, em intercâmbio na Europa, já dera sinais que não voltaria tão cedo.

            Daniel levanta-se do banco, fim de visita e a tia continua com um fio de vida. Ele deseja que não dure mais uma semana, senão será forçado a uma nova encenação de apreço familiar. Olha para a porta de saída do hospital e vê o dia ensolarado zombar de sua insignificância. Sente-se um afogado debatendo-se por um sopro de vida.

            Tudo ainda muito branco. Abre os olhos, não é o único que olha. Uma enfermeira o olha com preocupação, mas tem certeza de que há um par de olhos a mais na sala onde estão só os dois. Esforça-se para sentar e tem a leve impressão de fazer isso com mais facilidade do que poderia supor.

─ Calma, levanta devagar senão o senhor pode ter uma nova vertigem.

─ Eu não sei o que houve. Estava saindo do hospital.

─ O senhor desmaiou próximo à recepção. Mas sua pressão está bem e a glicose também. Sem qualquer alteração.

            Daniel quer sair dali, mas também tem a esperança de estar com algum grave mal. Surpreende-se olhando para os seios da enfermeira que o ajuda a se levantar. Ela percebe seu olhar.

─ Bom, já estás bem melhor. Tem uma lancheria no segundo andar, passa lá e come alguma coisa. Se tiveres um novo desmaio é melhor consultar um médico.

            O que mais perturba Daniel é perceber que não olhou para os seios dela, o que de fato ocorrera é uma nova percepção, algo que ele não consegue definir bem, ele viu a si mesmo olhar para os seios dela como se fosse apenas um observador da cena.

            Anda até o carro sentindo-se fora de esquadro. É como se não fizesse parte do mundo, mas ao mesmo tempo transita pela vida com a mesma desenvoltura de sempre. A mão de sempre coloca a chave na ignição, o pé esquerdo na embreagem. Ambos estranhos. Antes de partir, olha-se no espelho retrovisor e se assusta. É como entrar em uma daquelas cabines para provar roupas nas lojas. Lembra-se de algumas que tinham espelhos em duas paredes paralelas que multiplicavam a imagem ao infinito. Ele se olha e vê a si e a alguém que o olha e ele se vê nesse outro olhar. Aterrorizado, Daniel fecha os olhos e encosta-se no banco com força. Bateu a cabeça quando desmaiou no hospital, ele pensa procurando encontrar uma explicação. Algo em seu cérebro se soltou e apagou. Ou se acendeu. É surpreendido pelo toque do próprio celular.

─ Daniel, por onde anda? A gente tem que fechar as pautas da próxima edição.

            Silêncio, não sabe o que responder ao chefe. Uma mão que já não reconhece, engata a marcha e, com a ajuda de um corpo que fica cada vez mais estranho, dá partida ao carro em direção à redação do jornal.

            Olha a tudo e todos com um espanto que não é seu, ele mesmo só se espanta com a estranheza do corpo e com voracidade do outro olhar. Meia hora passada na frente do computador, sem uma palavra escrita. Daniel precisa produzir um texto sobre uma partida de futebol entre dois times do interior. Nunca apreciou futebol ou qualquer outro esporte, durante longo tempo sonhou em ser repórter investigativo, agora, com dez anos de trabalho pela frente ainda, sonha apenas com a aposentadoria.

            Decide escrever sobre o inusitado de suas sensações, o editor chefe que espere. Qualquer coisa, alegaria um mal-estar e iria embora mais cedo, mas quando se posiciona para digitar, vê os olhos lerem com avidez o material de suporte que recebeu para escrever o pequeno texto. Trata-se de uma lista de acontecimentos comuns em qualquer jogo, marcados pela contagem de tempo. Aos 12 minutos, escanteio; aos 23 minutos, reposição da bola; aos 30 minutos falta. Daniel percebe uma animação que o transcende e os dedos, que não lhe pertencem mais, digitam um texto de mais de 400 caracteres e o enviam ao chefe de redação.

─ Que piada é essa Daniel? Está tentando derrubar nosso cronista? Eu te peço um texto de 50 a 70 caracteres, apenas uma nota! E tu me vem com uma crônica! Volta lá e pratica a salutar arte do corte.

            Antes de voltar para a sua mesa, o seu chefe volta a chama-lo:

─ Mas tenho que admitir, é o melhor texto que já escreveste. Parabéns! Usa esse teu talento no próximo grenal, aí sim te consigo espaço.

            Grenal? A vontade de morrer de Daniel é substituída por raiva, uma raiva de algo dentro de si que não reconhece e que usurpa seu lugar perante os outros. Vai para casa dirigindo o carro. Sim, ele. Não a coisa que o habita. Pela primeira vez em muito tempo, dirige com energia e determinação.

            O que pode fazer? Procurar um analista? Um terreiro de umbanda? Pesquisar no google? Chega em casa e encontra sua mulher na cozinha preparando a janta. Desleixada, como de costume, o olha com uma expressão de tédio. Logo observa seu olhar de gula percorrer o corpo dela. Ela tagarela sobre sua rotina de advogada, os processos em que trabalha e os clientes que tem. Daniel permanece calado porque a boca ainda lhe pertence, mas percebe um interesse inédito pelos assuntos da mulher. Perdera os ouvidos.

            À noite, na cama, começa a refletir na guerra que vive. O inimigo o pegou de surpresa e conquistou vários territórios de assalto, agora ele tem que pensar em como retomar seus domínios. Não gosta daquela presença, precisa lutar por si e por seu corpo. Pela manhã, Daniel fica observando a esposa se arrumar para o trabalho, sente atração pelo corpo de mulher de meia-idade.

            Na semana seguinte, Daniel é expectador de sua rotina de trabalho, toma cafezinho com os colegas, discute ativamente as pautas da seção de esportes e escreve com prazer os textos que lhe são exigidos. Luta para retomar o controle, tenta cruzar os braços, imobilizar os dedos no teclado, mas tudo o que consegue é um ou outro erro ortográfico, nada mais. Decide retornar ao hospital, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que começou lá. Talvez um espírito, talvez um demônio tenha se apossado de seu corpo e mudado sua trajetória de vida. Talvez uma máquina de radiografia defeituosa tenha vazado radiação, alterando seu DNA.

            Daniel entra no carro, não sabe o que fará quando chegar ao hospital, mas sabe que deve ir para lá. Estaciona na garagem de seu prédio, sobe os seis andares de elevador. Abre a porta, a mulher novamente está na cozinha, vai até ela e dá um apaixonado beijo. Fazem sexo ali mesmo, como não acontecia há vinte anos. No início ela resiste um pouco, mas depois corresponde com igual desejo.

            Na manhã seguinte, a esposa abre os olhos e vê o marido já acordado. Aninha-se ao corpo dele e fala:

─ Daniel, eu ainda te amo. E me surpreendo com isso.

Ele beija os cabelos dela e sorri, já está começando a se acostumar com esse nome.

domingo, 6 de agosto de 2017

LUANA DAS ENCRUZILHADAS


 

Taiasmin Ohnmacht

 

Quando todos se foram, ficou a avó. Ficou, não; Luana das Encruzilhadas ficou. Sem escolhas, para avó e neta.

            Sentada à mesa, olhava a cozinha muito limpa; piso, mesa e pia. E a avó que ia e vinha ao redor do fogão. Cheiro de limpeza e de comida, mas Luana não tinha fome, quase nunca tinha.

            A mulher do conselho tutelar falou com sua avó, era a segunda vez. Na primeira vez, a avó se recusou a ficar com eles, a mãe disse que estaria sempre por perto, e o pai, desaparecido, assim permaneceu. A mãe foi a única que mentiu. E bons anos se seguiram. Luana das Encruzilhadas e os irmãos, fim de infância, início de adolescência.

            A avó falava e falava enquanto cozinhava, sempre falava demais, era muito ruído para Luana, fervura, fritura, metal raspando, metal batendo. Luana queria os irmãos, a casa em que viveram, a família que conhecera, a bagunça que era só deles. Queria o meio-fio onde ela e seus dois irmãos sentaram ao se darem conta de que a casa estava vazia e assim ficaria se eles não entrassem nela, e que ninguém os chamaria para dentro.

            Foi na encruzilhada que Luana tomou o primeiro gole. Em uma aposta com a criançada da rua, ela e seus irmãos pegaram a cachaça do santo, sem qualquer hesitação, só não pegaram a comida porque os cachorros chegaram antes.

            Pouco a pouco todos foram partindo, o irmão do meio morto em um assalto, o mais velho, de muda para a casa dos pais da namorada grávida, julgou que a casa das encruzilhadas não era bom lugar para criar filhos.

            Luana vagou por um tempo, becos, ruas, avenidas. Até se trancar em casa com muitas garrafas e a certeza de que tinha tudo o que era preciso. Não havia mais irmãos, não havia mais família.

            Os vizinhos que se mobilizaram anos antes e ajudaram as crianças com comida, não faltaram mais essa vez, mesmo acostumados com o caos da casa da esquina, ver Luana das Encruzilhadas fechando todos os caminhos com seu miúdo corpo ébrio caído, foi demais. Procuraram a mãe, os familiares, o Estado.

Sobrou Luana e as encruzilhadas. E a avó.

            Agora tudo o que Luana queria era apagar um pouco. Sua avó serviu-lhe o almoço, mas a menina apenas deslocava a comida de um lado para o outro enquanto se perguntava se não haveria algo para beber naquela casa tão limpa. Álcool, é claro! O cheiro de limpeza da casa era de pano com álcool.

            Levantou-se da mesa e começou a revirar os armários da avó.

─ A comida aqui é simples, não tem outra coisa.

            Luana não escutou, continuou revirando os armários, procurando álcool de limpeza.

─ Está procurando o quê, menina?

            Alimentos, panelas, pratos.

─ Senta e vem comer.

            Potes com arroz, feijão, açúcar. Saleiro, macarrão, café. Então, Luana escutou:

─ O mesmo desassossego do teu pai.

            Encontrou o vinagre de álcool. Pegou-o e olhou para a avó que lhe devolvia o olhar enquanto mastigava.

─ Eu não fiz salada, amanhã faço. O teu pai também gostava. Senta aqui, vamos almoçar.

            Luana sentou, derramou muito vinagre no prato e, por fim, comeu.

 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

TUDO O QUE HÁ PARA SABER






Taiasmin Ohnmacht

 

O corpo todo dolorido. Depois de três meses ele entendeu; há dores que não passam, mas talvez já soubesse disso.

            As coisas aconteceram, não escolheu, não provocou, mas foi obrigado a colocar um ponto final.

            Paulo olhou as paredes manchadas, restos de reboco e ferros aparentes. Sentado no chão frio e irregular, se viu com a caixa de cimento e a trolha reparando um mundo que desmoronava.

            Cheiro de mofo e suor. Era difícil dormir. Ao começar a adormecer, olhos e a boca carregados de maquiagem surgiam a sua frente. Então acordava e praguejava contra aquela mulher que o torturara. Se pudesse a mataria de novo.

            Uma única vez sonhou com o corpo forte do rapaz, os dois riam de alguma piada em um sonho reconfortante. Acordou assustado, como se os outros sete companheiros da cela soubessem de seus pesadelos. E todos dormiam, e todos sabiam. As dores no corpo voltaram a incomodar.

            No caminho para o pátio, Paulo olhava com indiferença os corredores e os funcionários armados. Ao ser atingido pela intensa luminosidade do espaço entre as galerias, lembrou a última vez que percorreu o caminho de volta do trabalho, com o martelo na mão e ódio suficiente para as dezenove marteladas desferidas na cabeça daquela bruxa. O fraco sol de inverno era incapaz de diminuir o frio em seu corpo.

            Naquele ambiente, ele se sentia exilado do mundo humano, mas também pensava que já vivia em exílio muito tempo antes, controlando olhares e desejos e sentindo o risco constante de ser humilhado. Temor concretizado com a chegada daquela mulher.

Um conjunto de cartas, copas e espadas. Ele conhecia canastra, mas não aquele jogo. Dependia dela e de suas palavras. Não sabia por que fora procurá-la. Todos no bairro falavam de seus poderes. Que poderes ela teria para ele? Já na primeira vez ficou impressionado. Em meio a baforadas de charuto ela falou de seu isolamento, de sua solidão, sem que ele precisasse dizer qualquer palavra. Saiu de lá sentindo ter-se encontrado.

Na cela, Paulo evitava olhar para os outros presos. Não que isso evitasse as surras. Às vezes, evitava as curras. Mas nada o fazia esquecer o rapaz que haviam colocado como seu ajudante na obra. Última lembrança de vida que tinha; os dois compartilhando trabalho, interesses e sexo, em um encontro inédito para ele.

A vida continuou dividida, mas um pouco mais fácil ou mais interessante. Até aquela feiticeira resolver destruí-lo. Em seu itinerário de ida e volta do trabalho ela sempre estava no portão, no início um sorriso enigmático. Um dia o convidou a entrar, falou que ele estava carregado, precisava de um passe. Depois as cartas. Paulo olhou para a boca vermelha e ouviu:

- Você tem uma pessoa especial em sua vida. Um rapaz jovem, moreno...negro.

            Quem havia contado para ela? Aquela mulher era o demônio? Só podia ser uma vaca de uma cigana, uma macumbeira! Confuso, disse que tinha um filho, todos no bairro sabiam que ele tinha um filho. Era perfeitamente crível que o rapaz especial fosse seu filho. Foi embora apressado. Com o passar das horas se acalmou. Pura coincidência. Ela não tinha como saber.

            Paulo lembrou o dia em que chegou preso. Todos sabiam. Ele não fazia ideia de como isso era possível, mas no presídio todos sabiam. A diferença era que ele não se importava mais.

            No início, a macumbeira foi sutil, apenas um pequeno sorriso. Depois, uma frase fora de contexto:

- A tua mulher não te dá o que tu gosta, né? - e deu uma gargalhada de vagabunda.

            Paulo mudou o caminho que fazia para não passar em frente da casa dela, mas moravam na mesma rua, nem sempre era possível evitá-la. Na maior parte das vezes ela não falava nada, o mais comum era um olhar zombeteiro. Apesar disso, vivia tenso, como um condenado a uma desgraça iminente.

- Tu não vem mais aqui? Eu tenho mais algumas coisas pra te dizer. Algumas até acho que tu ia gostar.

Não parou, tentando passar rápido em seu caminho para o trabalho, mas ela continuou:

- Que pressa! Acho que este trabalho está te sugando demais. Tenho que ir lá ver em quem tu tá trabalhando.

            Não suportava mais o deboche e a risada diabólica, mas a partir de então escutou algo mais, uma ameaça. Trabalhou o dia inteiro. Quase não falou com o rapaz. No final do dia, saiu da obra carregando o martelo.

            Paulo olhava as paredes cheias de bolor enquanto uma nova imagem surgia em sua mente. No interlúdio entre os gritos e o próprio choro, nas sessões de terror que vivia, imaginava-se com uma marreta nas paredes decrépitas que o continham.

 


quarta-feira, 19 de abril de 2017

ARRISCAMENTOS





Cuspo tinta azul
Do sexo oral
Com a caneta
O escarro
Desenha letras
E me cobra sentido




Sub Atração

Nem eu
Nem você
Vamos nos ver
Hoje, amanhã
Ou em qualquer tempo
Equação de exclusão
Sobra o vazio
 
 
 
 
Restolho
 
Não te assustes com os obreiros da morte
Enquanto os vermes devoram teu corpo
Teu nome estará sendo dito
Em lamentos
Missas
E alívios
No dia em que restarem só ossos
Nem isso.
 
 
 
 
Palavra é larva que devora a coisa
 
 
 
 
 
 
 
 




sexta-feira, 31 de março de 2017

Escritoras Negras, por Priscila Pasko.

Abaixo, o link da excelente reportagem da jornalista Priscila Pasko, sobre escritoras gaúchas negras.

http://www.nonada.com.br/2017/03/por-que-nao-conhecemos-as-escritoras-negras-gauchas/


E a seguir, a minha participação com o poema Considerações:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CRÔNICA DE UM DESEJO



 
Taiasmin Ohnmacht

 

Eu o desejo amante de um amor já perdido. Sou daquelas pessoas que inventam amores e que desejam o desejo.

            Não quero falar dos motivos, nem saberia. Quero dizer que imagino, ao lado dele, um mundo à parte, protegido do cotidiano. Não suporto dias previsíveis, nem vida repetitiva. Quero ser arrebatada por algo incontrolável, que me tire do eixo e me torne outra, porque tem algo em mim que eu mesma não aguento.

 

            Ele deixou visível uma intimidade com a namorada e eu comentei. Sim, fui inconveniente. Sim, me excedi. Sim, quero entrar pelas frestas que há entre os dois e sorver os fluídos que trocam, quero ser ela e ter o melhor dele, quero ser ela e deixar de ser também.

(e aquele que se chama meu marido ignora o meu desejo. Ele pensa que sabe e atende ao que pensa que eu quero. Saberia um pouco mais se me escutasse)

            Espero todos os dias pelas palavras que ele digita, que os seus dedos se acomodem em meu corpo e encham meu corpo/copo de perguntas bobas, de perguntas vazias, de um querer que me tome.

            Essa mania de inventar amores sempre acaba me deixando com um gosto amargo na boca. É bom que eu me lembre: não sou uma opção para ele (nem ele para mim), posso ser um acidente, não uma opção.

            Não conseguimos ser nem amantes, nem amigos. O carinho que temos, o gosto por conversar e as afinidades, são contaminados pela atração. E toda palavra tem mais de um sentido, e lemos os vários sentidos fingindo não ler, e gozamos nossa fingida seriedade e gozamos. Estou intoxicada dele, estou intoxicada com meu desejo. Ao não consumi-lo, consumo a mim.

            Entre conversas e silêncios, vou compondo minha idealização. Todas as conversas com ele são belas, mas às vezes terminamos mais amigos que amantes e não sei se me agrado. Sexo com ele é uma fantasia, talvez unilateral, mas o que mais me encanta é pensar que ele possa me desejar, que eu possa seduzi-lo. De qualquer modo, é possível que exista mais sexo em nossas conversas do que jamais poderia se dar em um encontro físico.

            Agora dei para ter ciúme dele! Não é exatamente de outras mulheres, mas de que ele encontre vida em outro lugar que não seja em mim. Esse é um mal do qual padecem todas as mulheres, sobretudo as apaixonadas.

            Escrevo essas linhas para perverter desencontro em encontro, com o açoite da palavra. Talvez aqui eu tenha o que essencial dele e que só possa ser encontrado em mim.

            Hoje pensei estar livre dele, mas percebi que não, estou apenas longe. Suspeito que ele seja o próprio desejo. Às vezes sei o que ele anda fazendo, outras não. Ele nunca mais me disse estar com saudades e eu me apego a palavras que a barra de rolagem leva adiante. Não, nunca estou indiferente. O meu desejo não está à deriva, mas afrouxado.

 

            Eu me conformo com o dia a dia e com o amor que posso ter. A vida não é grande coisa, nem pra mim nem pra ninguém.

            Não falo em amor, mas em uma certa necessidade de existir para além da vida comum e por isso escrevo. Ninguém pode suprir o meu desejo para o fantástico e, assim, fico o inventando em meu cotidiano.

            Vou enviar para ele todas os poemas que escrevi.

            Eu não tenho o direito. Eu não o tenho direito.

            Então é isso, estamos apartados. Não importam as palavras, ele sabe e eu sei que a escolha foi pelo fim. Não foi surpreendente, foi medíocre. Do jeito que se esperava desde o princípio. Surpreendente seria se tivéssemos nos permitido.