terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ENTRE NÓS



Taiasmin Ohnmacht


Em meu corpo dois mundos
África e Europa
Europa domina África
Europa subjuga África
Europa vende espelhos
Ignorantes de África

Em meu corpo dois mundos
África se derrama sobre Europa
Resistência: palavra e ritmo
Em meu corpo a revolta

Meu corpo em
Europa que não é Europa
Meu corpo em
África que não é África
Meu corpo novo mundo
Em disputa
Meu corpo revolução

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A MÃO E A LETRA




Taiasmin Ohnmacht

Eu gosto de descobri-la, eu a convido, a domino, mas depois que avançamos um pouco, somos amantes, bailarinas. Os meus movimentos são ela e ela me justifica. Às vezes erro suas curvas e ela me olha magoada, eu garanto que é sempre linda e que a essência se sobrepõe a suas formas.
Eu a convoco e ela se entrega em minhas mãos e juntas criamos vida. Chego a pensar que ela é só minha, mas nosso relacionamento é aberto, ela é de todos. Ciúme? Sempre! Mas ela também se faz bela com outros.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

UM PEIXE NA PRIVADA NÃO É UM PEIXE




Taiasmin Ohnmacht
 
 
 
No andar alto de um prédio envidraçado.

Edu Privada: Senhores, estamos aqui para refletir e traçar estratégias. Não somos de esperar por acontecimentos, o cálculo e a ação sempre foram nossa marca. Temos que criar uma onda que favoreça novas expansões da família.

Seg Privada: Muito bem, tenho a dizer que tudo é time, senhores. É como uma bomba a ser acionada em um momento preciso, que dará início a uma sequência de explosões menores. Após a primeira explosão, basta ir atrás do rastro de destruição e colher moedas dos escombros.

Sau Privada: Seg, apesar do que nos irmana, devo dizer que suas metáforas são lastimáveis.

Seg: Ora, somos da mesma família. Você é tão Privada quanto eu! Sau, se eu lucro, você também lucra, independente das palavras em que isso seja colocado.

Edu: Chamei-os aqui para unimos esforços. Nem sempre a melhor estratégia é esperar por espólios. Pode até funcionar bem para você, Seg, mas para mim é desastroso, e também não gera bons resultados para Sau. A família Privada precisa expandir territórios, precisamos ter a determinação de conquistadores.

Seg (com ar pensativo): Europa? Temos dificuldades, mas estamos implantando algumas ações para mudar a cultura de um modo que nos seja mais favorável. A América está dominada.

Edu: Depende de que América você fala. Que tal um território de duzentos milhões de habitantes, ao sul do continente?

Seg: Brasil? Tem sido um ótimo mercado, e que só cresce. E essa é a tendência por muito tempo ainda. Mas não há novidade nisso, Edu.

Sau: Para você, Seg. Saúde e Educação ainda estão fortemente dependentes dos serviços públicos. Para mim e Edu, os negócios ainda são muito limitados. Claro que os serviços oferecidos são precários, e podemos crescer em cima dessas falhas.

Edu: Contávamos com isso há cinquenta anos atrás. Apoiamos um desmonte na educação, no entanto, não gerou os lucros irrestritos que esperávamos. O Estado ainda restringe nossa atuação.

Seg: Serviços ruins...nenhuma revolta popular para apoiarmos?

Sau: A população está insatisfeita, mas não a ponto da revolta. Na verdade, parecem satisfeitos com o governo.

Seg: Mesmo depois de 2008?

Edu: Temos que pensar como vender o peixe da família Privada. O argumento dos péssimos serviços públicos é bom, mas deve haver um certo cuidado com a indignação popular. Os efeitos de uma real indignação podem ser prejudiciais a nossos interesses.

Seg: Se bem que, a população raivosa nas ruas, pode gerar novas demandas; artefatos de contensão, bombas, máscaras, gás.

Edu: Contenha-se Seg! Estamos aqui para pensar na família Privada como um todo, e não apenas nos lucros da segurança.

Seg: Está bem, é justo. De nós três, talvez eu tenha sido o que mais venho lucrando mundo afora. Por outro lado, vocês têm que reconhecer os serviços que presto ao romper com qualquer laço de solidariedade. Eu sou o abre-alas da família Privada.

            (Sau e Edu se olham sorrindo)

Bem, eu tenho uma ideia. Tenho muitos projetos em parceria com o primo Oil e sei que ele tem interesses na região. Poderíamos compor forças. O primo Oil tem contatos poderosos, inclusive com órgãos de inteligência. Talvez encontrem motivos para se envolver.

Sau: O primo Oil! Boa lembrança! Fale com ele, Seg, mas leve o Edu junto. Queremos que o Oil entenda que não se trata de uma questão a ser resolvida como o Oriente Médio.

Edu: Muito bem, senhores. Saímos dessa reunião com o esboço de um projeto e, uma vez mais, com a certeza de que somos a história.

            Os três irmãos apertam as mãos e se retiram da sala.

 

            No coração da América do Sul, um ruído alto de descarga é ouvido.

domingo, 13 de novembro de 2016

JACK

 
 
 
Inspirada por um amigo Oldpunk
amante do Rock.
 
 
 
 
O teu negócio é arte suave
E o meu é rock pesado
Química leve
Não me serve
É Hard Rock
Baby
 
Na madrugada pinta telas
Tons pasteis
Meus tons são cruéis
Quebro o quarto
Guitarra, bateria e baixo
 
Não temo o asfalto
Não sou bicho
Para muros altos
Quero sereno e poeira
Pra gritar a noite inteira
Hard Rock
Baby
 
Sou fissurado na estrada
Comigo o tudo é nada
Tua história é apagada
Vou cair fora
Cantar sozinho o
Hard Rock
Baby


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

METEORO TEM MUITOS NOMES


 


esse mundo de merda está gravido de outro

Eduardo Galeano

 


Diziam que o mundo acabaria na virada dos anos 2000, que pelo menos haveria um colapso no mundo da comunicação virtual. Nada aconteceu. Em 2001, muitos de nós que vivemos meio século 20 esperando a 3° guerra mundial e o consequente hecatombe nuclear, tivemos a certeza de que o fim havia chegado. Um pouco atrasado, mas aí estava. Bem, foi o fim para os cidadãos nas torres, para os afegãos, para os iraquianos; parte do mundo árabe ainda está em convulsão e produz em troca ISIS e milhares de pessoas desesperadas batendo nos portos europeus em busca de vida. Mas o ocidente continua em pé.

 Em 2008 o dinheiro quebra o mundo. Não é a primeira vez e nem foi o fim, pois continua quebrando.

E rimos em 2012 de quem esperou por bolas de fogo vindas do céu a confirmar o apocalipse Maia. Na verdade, o fim do calendário que sobreviveu ao seu próprio povo. Rimos porque foi um ano como qualquer outro. Talvez uma chuva de granizo no sul do Brasil, uma tempestade de neve nos países nórdicos e, certamente, o aquecimento global, catástrofe a conta gotas.

 Até que que chegou 2013, confuso, estranho, borbulhante, seminal. Ninguém entendeu nada e nunca mais fomos os mesmos. Nossas vidas parecem as de sempre, mas não olhamos uns para os outros da mesma forma. Algo acabou e não há caminho de volta. Muitos tentam um retorno e cada um tem uma estrada ou um ponto diferente para o qual quer regressar. Nesse meio tempo deu uma down na high society e entramos em guerra. Mãos brancas manipulam fantoches e insistem em chamá-los de Instituições. As palavras são esvaziadas de sentido, não há qualquer garantia. Permanecemos confusos e perdidos, embora há os que afirmem mais confiança do que é possível. As convicções são mais propagadas quando o solo sob nossos pés está movediço, sabemos bem disso. E vamos equilibrando nossas esperanças na corda bamba, tal qual o bêbado e a equilibrista, mas com cuidado para que as certezas não nos embaracem os pés.

Seguimos nesse fim sem fim, arrastando cadáveres de amigos e inimigos. Aqui, na Síria, na França, nos EUA. E é preciso ter estômago, porque o cheiro é insuportável.
Talvez o mundo tenha chegado ao seu fim, não de uma vez, não um armagedom, mas aos poucos e com várias datas.

Saudade de 2013.
 
Taiasmin Ohnmacht
 
Tags: crise mundial 2013 política 


domingo, 15 de maio de 2016

FRONTEIRAS



Taiasmin Ohnmacht

Ainda estou aqui.
            Meu nome é Matheus, mas isso pouco importa, poderia ser Lucas, João ou qualquer outro.
            Não sei se alguém ainda se lembra de mim, mas eu me lembro de tudo e sigo faminto.
            Sentado na rua, olho o movimento de carros e pedestres, toco na calçada e sinto o piso gelado. Amo sentir esse frio. O cheiro de chão é uma mistura de terra, cimento e excrementos de tudo o que é vivo. A vida habita o solo. Quando criança, cavava buracos em busca de minhocas. Hoje há um determinado pedaço de chão no mundo onde, se cavar, vou encontrar minha derradeira face, e ela é a própria morte.
            Ando a esmo pelas ruas, não busco rostos conhecidos, mas quaisquer rostos que me sejam simpáticos e tenham um pouco de calor humano para compartilhar comigo. Mantenho distância dos deprimidos, a morte neles é maior do que em mim. E se o nada neles me aprisionar, me exilar da morte que conheço e me tornar uno com eles, uma massa disforme morta-viva?
            Não. Prefiro o mundo dos loucos que andam por aí acreditando que tudo vai fazer sentido no próximo beijo, na próxima festa, na próxima promoção. Aqueles que acreditam que a vida vai se realizar plena ao fim de cada pai-nosso, de cada aleluia. Credo!
            Estou morto o suficiente para reconhecer a vida. Sei que eles vão seguir por aí alienados, até o momento em que a terra abrir a boca para digerir suas mortes. Mas até lá seus dias estarão abarrotados de sensações e emoções. Os sigo para mais uma vez ver e sentir, pois quando vivia havia as cores intensas e a voz infantil dos meus filhos no quarto ao lado, e a dor da saudade é tudo o que resta sem a ajuda dos vivos.
            Sigo a pessoa por um tempo, respiro com ela, vejo com ela, mas às vezes quero mais. Então enguiço um carro para provocar uma caminhada ao sol, para aproveitar melhor as cores do dia. Atraio cães de rua que nos cheiram e fazem cócegas na pele. Estrago a bateria do celular, derrubo a rede para liberar olhos e ouvidos. Provoco encontros estranhos, paixões prementes. Porque a vida é essa que acontece enquanto se olha para outro lugar.
            Da morte não há nada que mereça ser contado. Apenas muito desejo de vida. Dizem que reencarnação existe. Não sei. Por aqui vejo os mesmos mortos de sempre, nenhum desapareceu sem explicações. E explicação é aquilo que os vivos usam para arrefecer a vida.
            Já fiz a minha escolha: criar alguns obstáculos no cotidiano dos que pulsam e não sabem, para que pulsem um pouco mais. E que eu pulse com eles.

Foto: Renata Stodulski

Tags: conto morto-vivo

sexta-feira, 15 de abril de 2016

TRAÇOS




Taiasmin Ohnmacht

Visto tua roupa
Ganho teus traços
Moldo meu corpo e meu abraço
E o que importa é o vazio de tua forma
Onde me encaixo.

terça-feira, 12 de abril de 2016

POST MORTEM




Taiasmin Ohnmacht





Todos os dias ele calçava um sapato social preto. Nem sempre era o mesmo, tinha seis pares iguais. Gostava de usar calças sociais e não imaginava outro sapato que combinasse melhor com elas.

            Edgar tinha estilo. O mesmo, sempre. Camisas claras, calças escuras e sapatos pretos. Era um homem cuidadoso, previdente. Não se importava que alguns o chamassem de previsível. Assim ele era e ponto! A bem da verdade, tinha pouca sorte com as mulheres, mas a maioria dos homens que conhecia tinham menos sucesso com o elas do que gostavam de confessar.

            Diariamente, Edgar acordava na mesma hora, tomava banho na mesma hora, lia jornal na mesma hora, enquanto seu intestino funcionava, sempre no mesmo horário. Chegava ao cartório às oito horas, pontualmente, e deliciava-se em cumprir sua rotina de conferir, carimbar e assinar. Às vezes, carimbar, conferir e assinar. Na mesa ao lado, Patrícia. Ruiva, sorridente e simpática com todos. Edgar tinha dúvidas se ela conferia alguma coisa. A julgar pelo número de vezes que levantava, sentava e conversava com os colegas, ele suspeitava que ela arriscava-se a apenas carimbar e assinar. No entanto, nada comentava. Não era do tipo de se intrometer na vida dos outros. O problema é que a vida dos outros costumava intrometer-se na dele.

            O dia começou igual a todos os outros até Edgar chegar ao trabalho. Estranhou grande parte dos colegas reunidos ao redor da máquina de café. O clima pesado era óbvio.

- Tu não soube, Edgar? A mãe da Zuleika morreu.

            Zuleika, a moça da limpeza. Pobre Zuleika, pensou.

- A gente tá fazendo uma vaquinha para ajudar no enterro. Sabe como é, momento difícil...

            Pobre mesmo! Edgar pensou na indignidade da situação. A mãe morre e a filha ainda tem que se endividar para o enterro. Existe coisa pior?

- A família até conseguiu um jazigo, o problema são os serviços funerários.

            Edgar sentiu um frio na barriga. Há muitos anos pagava mensalmente um jazigo eterno, mas nunca havia pensado nos serviços funerários. Como deixou esse detalhe passar? A morte pode chegar a qualquer momento, não deveria estar desprevenido. Edgar abriu a carteira, tirou a maior nota que tinha como sincera contribuição e foi para sua mesa trabalhar. Na hora do almoço, enfrentou o calor de fevereiro com sua calça preta e o sapato social. No restaurante de sempre, Patrícia e outros dois colegas o encontraram já no meio da refeição. Edgar não teve outra opção senão convidá-los a sentarem. Ele gostava de almoçar sozinho com seus pensamentos. Comer era uma atividade de suma importância para o bom funcionamento da saúde e fazia questão de prestar atenção nas cores que comia e na ordem que elas eram conduzidas ao seu aparelho digestivo, mas naquele dia não teve jeito, foi obrigado a escutar Patrícia. Animada, falava sem parar sobre os vários bailes de carnaval aos quais iria na praia, durante o feriado. Edgar nunca teve interesse por carnaval, gostava de Patrícia, mas tinha assuntos mais importantes para resolver.

            Naquela semana, visitou várias funerárias. Descobriu modelos de caixão inusitados, com madeiras entalhadas e cetins deslumbrantes. Ouviu explicações interessantíssimas sobre maquiagem pós morte, na qual, enfim, a pessoa encontrava a sua melhor aparência. Em alguns casos, melhor do que jamais tivera em vida! Edgar começava a pensar até na possibilidade de frequentar alguns velórios para pegar dicas e recomendações de funerárias. Isso, até entrar na funerária Encontro Certo. Lá foi recebido por uma vendedora tão lúgubre quanto o negócio com o qual trabalhava. Toda de preto e pálida, escutou as perguntas de Edgar com respeitoso silêncio. Abriu uma gaveta com movimentos quase cerimoniais. De lá, tirou um álbum com capa forrada de veludo roxo.

- O senhor veio ao lugar certo. Olhe estas fotos e verás que o nosso trabalho é de pura arte.

            Edgar abriu o álbum também com alguma cerimônia. Seu coração bateu forte. Homens, mulheres, velhos e jovens, até algumas crianças. Todos pálidos, olhos fechados, rostos perfeitos, mas inertes. A morte dominava a cena em todas as fotos.

            Ele saiu zonzo da funerária. Era final da tarde de sexta, a cidade estava esvaziando rumo às festas de Momo. Edgar chegou cedo em casa e descalçou os sapatos pretos. Andou por um tempo no apartamento sem saber o que fazer com tantos dias de folga pela frente. Até que não teve mais dúvidas. No armário, pegou uma mala, não tinha muitas roupas para botar, teria que comprar algumas pelo caminho. Iria de chinelo de dedo. Pegou o carro e foi para a praia.