sexta-feira, 30 de maio de 2014

E OS OLHOS JÁ ESTAVAM PERDIDOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Sentado em uma cadeira incômoda, Daniel pensa que nem para morrer tem sorte. Espera pela partida de sua tia, que pode dar-se a qualquer momento. Ela está na UTI e ele em uma visita só-para-constar. Enfisema pulmonar. Não é uma doença genética. Até nisso a família lhe foi falha. Mesmo assim, foi visitar a insignificante tia, anda tão pesado que não precisa carregar mais as acusações maternas de negligência com os parentes.

            Sente uma indiferença libertadora frente à morte. Sobretudo à sua. Não há coisa alguma que ela possa tirar-lhe, na verdade o libertaria de uma série de fracassos e frustrações. Daniel pensa no Dilúvio, se fosse mais do que um arroio, poderia resolver seus problemas ali mesmo, afinal passa bem em frente ao hospital. O Guaíba seria uma boa solução, sendo rio ou não, mas falta-lhe energia para andar até lá.

            Desanimado, pensa na rotina de trabalho humilhante que tem pela frente, escrever textos inúteis sobre esportes pouco importantes e que certamente serão severamente criticados pelo chefe de redação. Ir para casa não é melhor; enfrentar a ausência afetiva da mulher, que tem um amante ou procura por um. O filho, único motivo de alegria que sobrara, em intercâmbio na Europa, já dera sinais que não voltaria tão cedo.

            Daniel levanta-se do banco, fim de visita e a tia continua com um fio de vida. Ele deseja que não dure mais uma semana, senão será forçado a uma nova encenação de apreço familiar. Olha para a porta de saída do hospital e vê o dia ensolarado zombar de sua insignificância. Sente-se um afogado debatendo-se por um sopro de vida.

            Tudo ainda muito branco. Abre os olhos, não é o único que olha. Uma enfermeira o olha com preocupação, mas tem certeza de que há um par de olhos a mais na sala onde estão só os dois. Esforça-se para sentar e tem a leve impressão de fazer isso com mais facilidade do que poderia supor.

─ Calma, levanta devagar senão o senhor pode ter uma nova vertigem.

─ Eu não sei o que houve. Estava saindo do hospital.

─ O senhor desmaiou próximo à recepção. Mas sua pressão está bem e a glicose também. Sem qualquer alteração.

            Daniel quer sair dali, mas também tem a esperança de estar com algum grave mal. Surpreende-se olhando para os seios da enfermeira que o ajuda a se levantar. Ela percebe seu olhar.

─ Bom, já estás bem melhor. Tem uma lancheria no segundo andar, passa lá e come alguma coisa. Se tiveres um novo desmaio é melhor consultar um médico.

            O que mais perturba Daniel é perceber que não olhou para os seios dela, o que de fato ocorrera é uma nova percepção, algo que ele não consegue definir bem, ele viu a si mesmo olhar para os seios dela como se fosse apenas um observador da cena.

            Anda até o carro sentindo-se fora de esquadro. É como se não fizesse parte do mundo, mas ao mesmo tempo transita pela vida com a mesma desenvoltura de sempre. A mão de sempre coloca a chave na ignição, o pé esquerdo na embreagem. Ambos estranhos. Antes de partir, olha-se no espelho retrovisor e se assusta. É como entrar em uma daquelas cabines para provar roupas nas lojas. Lembra-se de algumas que tinham espelhos em duas paredes paralelas que multiplicavam a imagem ao infinito. Ele se olha e vê a si e a alguém que o olha e ele se vê nesse outro olhar. Aterrorizado, Daniel fecha os olhos e encosta-se no banco com força. Bateu a cabeça quando desmaiou no hospital, ele pensa procurando encontrar uma explicação. Algo em seu cérebro se soltou e apagou. Ou se acendeu. É surpreendido pelo toque do próprio celular.

─ Daniel, por onde anda? A gente tem que fechar as pautas da próxima edição.

            Silêncio, não sabe o que responder ao chefe. Uma mão que já não reconhece, engata a marcha e, com a ajuda de um corpo que fica cada vez mais estranho, dá partida ao carro em direção à redação do jornal.

            Olha a tudo e todos com um espanto que não é seu, ele mesmo só se espanta com a estranheza do corpo e com voracidade do outro olhar. Meia hora passada na frente do computador, sem uma palavra escrita. Daniel precisa produzir um texto sobre uma partida de futebol entre dois times do interior. Nunca apreciou futebol ou qualquer outro esporte, durante longo tempo sonhou em ser repórter investigativo, agora, com dez anos de trabalho pela frente ainda, sonha apenas com a aposentadoria.

            Decide escrever sobre o inusitado de suas sensações, o editor chefe que espere. Qualquer coisa, alegaria um mal-estar e iria embora mais cedo, mas quando se posiciona para digitar, vê os olhos lerem com avidez o material de suporte que recebeu para escrever o pequeno texto. Trata-se de uma lista de acontecimentos comuns em qualquer jogo, marcados pela contagem de tempo. Aos 12 minutos, escanteio; aos 23 minutos, reposição da bola; aos 30 minutos falta. Daniel percebe uma animação que o transcende e os dedos, que não lhe pertencem mais, digitam um texto de mais de 400 caracteres e o enviam ao chefe de redação.

─ Que piada é essa Daniel? Está tentando derrubar nosso cronista? Eu te peço um texto de 50 a 70 caracteres, apenas uma nota! E tu me vem com uma crônica! Volta lá e pratica a salutar arte do corte.

            Antes de voltar para a sua mesa, o seu chefe volta a chama-lo:

─ Mas tenho que admitir, é o melhor texto que já escreveste. Parabéns! Usa esse teu talento no próximo grenal, aí sim te consigo espaço.

            Grenal? A vontade de morrer de Daniel é substituída por raiva, uma raiva de algo dentro de si que não reconhece e que usurpa seu lugar perante os outros. Vai para casa dirigindo o carro. Sim, ele. Não a coisa que o habita. Pela primeira vez em muito tempo, dirige com energia e determinação.

            O que pode fazer? Procurar um analista? Um terreiro de umbanda? Pesquisar no google? Chega em casa e encontra sua mulher na cozinha preparando a janta. Desleixada, como de costume, o olha com uma expressão de tédio. Logo observa seu olhar de gula percorrer o corpo dela. Ela tagarela sobre sua rotina de advogada, os processos em que trabalha e os clientes que tem. Daniel permanece calado porque a boca ainda lhe pertence, mas percebe um interesse inédito pelos assuntos da mulher. Perdera os ouvidos.

            À noite, na cama, começa a refletir na guerra que vive. O inimigo o pegou de surpresa e conquistou vários territórios de assalto, agora ele tem que pensar em como retomar seus domínios. Não gosta daquela presença, precisa lutar por si e por seu corpo. Pela manhã, Daniel fica observando a esposa se arrumar para o trabalho, sente atração pelo corpo de mulher de meia-idade.

            Na semana seguinte, Daniel é expectador de sua rotina de trabalho, toma cafezinho com os colegas, discute ativamente as pautas da seção de esportes e escreve com prazer os textos que lhe são exigidos. Luta para retomar o controle, tenta cruzar os braços, imobilizar os dedos no teclado, mas tudo o que consegue é um ou outro erro ortográfico, nada mais. Decide retornar ao hospital, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que começou lá. Talvez um espírito, talvez um demônio tenha se apossado de seu corpo e mudado sua trajetória de vida. Talvez uma máquina de radiografia defeituosa tenha vazado radiação, alterando seu DNA.

            Daniel entra no carro, não sabe o que fará quando chegar ao hospital, mas sabe que deve ir para lá. Estaciona na garagem de seu prédio, sobe os seis andares de elevador. Abre a porta, a mulher novamente está na cozinha, vai até ela e dá um apaixonado beijo. Fazem sexo ali mesmo, como não acontecia há vinte anos. No início ela resiste um pouco, mas depois corresponde com igual desejo.

            Na manhã seguinte, a esposa abre os olhos e vê o marido já acordado. Aninha-se ao corpo dele e fala:

─ Daniel, eu ainda te amo. E me surpreendo com isso.

Ele beija os cabelos dela e sorri, já está começando a se acostumar com esse nome.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ARAPUÁ


Taiasmin Ohnmacht

 


Dois dias fora daquele lugar. Após um mês de loucura começo a me sentir melhor. O mundo volta ao normal, agradável e previsível.

            Cheiro de comida. Devo descer para o jantar, isso não é um hotel e a família Rogovski, que me hospeda, vai ficar ofendida se eu passar mais tempo recluso nesse quarto.

            O queixo do menino sentado à minha frente mal alcança à beirada da mesa e ele me olha com curiosidade por trás do vapor da sopa quente. O homem que me acolheu fala sem parar sobre a safra do milho, soja, feijão. Acho que só aceitou me receber porque sou agrônomo. Na verdade, nem sei bem como a filha dele me encontrou, muito menos o que disse aos pais. Tudo de que me lembro é do gosto de terra na boca e do desejo de que a morte me tirasse rápido dali.

 

            É madrugada e acordo assustado com o barulho do choro, deve ser o filho pequeno do casal. Não consigo voltar a adormecer. Casas de madeira sussurram à noite. Quando fugi da outra, ela gritava. Eu corri tanto que atravessei a divisa entre Arapuá e Centenário, distante oito quilômetros do meu sítio, quando não aguentei mais caí exausto, mas ainda escutando a casa. Acredito que foi assim que Cibele me encontrou, desacordado.

            Arapuá me pareceu um sonho. Município com menos de mil habitantes, entre Áurea, Carlos Gomes e Centenário. A primeira vez em que estive lá foi na década de 90, quando trabalhava para a EMBRAPA e fui enviado para fazer um estudo do solo no município de Áurea. Naquela época, Arapuá ainda não havia se emancipado, mas já era uma localidade tão encantadora que decidi me mudar para lá assim que me aposentasse. Como sou sozinho, dependi apenas de minha vontade para realizar esse sonho, quase uma década depois.

 

            Novamente choro de criança. Não tive filhos, mas esse menino não está um pouco crescido para manhas noturnas? Daqui a pouco vai começar a amanhecer, melhor tentar dormir mais um pouco.

            Eu vi Cibele apenas uma vez, quando recobrei a consciência no dia seguinte, ainda muito confuso. Senti um cheiro de azedo e me assustei, pensei estar de volta à casa, então ela me tranquilizou e me explicou onde eu estava, depois saiu e não a vi mais.

 

            Não demorei para encontrar um imóvel. Assim que retornei à cidade com intenção de ficar, hospedei-me no maior estabelecimento comercial de Arapuá, uma mistura de mercado, loja de roupas e hotel. O dono era um senhor falante e simpático, com o sotaque carregado da região, ele limpava as unhas com a rosca de um abridor de vinhos enquanto conversávamos e quando soube do meu interesse em me mudar, começou a falar das terras disponíveis na pequena cidade. Ele falava alto, para mim e para os seus clientes habituais que tinham aquele comércio como ponto de encontro, às vezes eles entravam na conversa com algum comentário que deveria ser espirituoso, mas que eu não entendia, pois não conhecia nem o lugar, nem as pessoas. Ele me falou de um sítio há uns quatro quilômetros de distância do centro da cidade, uma localidade chamada Lajeado do Leite Rubro.

─ Do Leito Rubro?  ─ não foi bem uma pergunta, eu praticamente corrigi o homem. Ele parou de limpar as unhas e o olhar que me lançou fez com que me sentisse um menino ingênuo.

 

            As jantas da família são bem servidas, comida caseira feita no fogão à lenha. Por onde andará Cibele? Quero perguntar, mas não ouso, não fica bem um velho ficar questionando por onde anda uma mocinha. O menino continua com seu olhar curioso por trás do prato. A mãe dele é silenciosa, mas às vezes me sorri com simpatia. Estou me sentindo cada vez melhor, hoje meu anfitrião me levou para ver suas terras que prometem uma boa safra de trigo e soja. Está chegando a hora de ir embora, não volto para Arapuá, preciso encontrar outro modo de vender meus hectares malditos. Os móveis e meus poucos pertences ficam lá. Nunca fui apegado a coisas e não vai ser agora que vou me apegar.

 

            Acordo assustado, sonhei com o lajeado e as águas estavam realmente vermelhas. No meu sonho o choro era alto, mas agora percebo que é o menino novamente, e o choro é baixo, quase contido. Melhor voltar a dormir, mas a casa sussurra.

 

            A casa do sítio, em Arapuá, era de madeira e velha. Arrumei o que pude com algum conhecimento de marcenaria que herdei do meu pai, mas a precariedade de minhas ferramentas comprometeu a qualidade do trabalho. Mesmo assim fiquei feliz com meu novo lugar no mundo. Planejei solicitar licença ambiental para cortar algumas árvores próximas para reduzir as sombras e a umidade da casa. A única coisa que me incomodava de fato era um estranho cheiro de leite azedo que vinha do pequeno riacho que passava pela propriedade. Algumas vezes era mais forte, outras nem se sentia, tudo dependia da direção do vento.

            Vivi na casa por um mês considerando alguns ruídos incompreensíveis como excentricidades da madeira e do vento. Até começar o choro.

 

            Meu Deus! Onde está o pesadelo? Na casa ou em mim? Hoje saí para a lavoura, no meio da florada da soja criei coragem e perguntei por Cibele. O sr. Rogovski me olhou com expressão de espanto. Interpretei aquele olhar, como uma resposta a uma pergunta inconveniente e comecei a explicar a minha curiosidade como natural, considerando que ele me ajudou em um momento difícil.

─ Eu não tenho filha. Só o meu guri, mesmo.

            O mundo girou ao meu redor e as coisas foram ficando ainda mais estranhas. Tentei explicar que estava falando da moça que me levara até sua casa, então ele deu uma risada um pouco constrangida e disse:

─ Não posso mais oferecer ao senhor minha cachaça artesanal. A mulher vive me dizendo que é muito forte, que só eu pra tomar aquilo.

─ Como cheguei até aqui? ─ questionei já muito nervoso.

─ Com suas pernas, dias atrás. O prefeito me avisou que a EMBRAPA ia mandar um agrônomo, até me disse o seu nome e pediu que eu hospedasse o senhor por uns dias.

─ Mas eu não trabalho mais lá, estou aposentado há um ano.

─ Como não? E o senhor tem feito o que nesses últimos dias? Quantas terras já visitamos na cidade?

            Não aguentei. Saí em direção à casa da família Rogovski e nem me importei em deixar meu anfitrião atônito ali. Quando entrei na cozinha, o fogão à lenha esquentava a casa preparando o almoço. Perguntei para sra. Rogovski se ela conhecia alguma Cibele, de Arapuá ou de Centenário ou de qualquer outra cidade da região. Ela me deu mais atenção do que qualquer outra vez, talvez por perceber que estava transtornado.

─ Não conheço, não. Mas se conhecesse não seria de Arapuá. Ninguém daria esse nome pra uma menina por lá, depois da história desgraçada daquela mãe.

            De repente, comecei a me questionar quando Cibele havia me dito seu nome. Acho que o escutei pela primeira vez da casa, quando os sussurros das madeiras começaram a formar palavras e por fim gritos. Cibele era um nome que as tábuas rangiam. Havia outros, mas o mais assustador era o barulho do machado se encravando na casa, rasgando as paredes. No último dia, antes de sair correndo, pude ver filetes de sangue escorrerem pela lâmpada da sala e pingarem sobre a mesa e o choro da criança era de pavor.

─ Não se sabe se o que houve entre ele e a mulher, ─ sra. Rogovski continuava o relato─ mas ele resolveu colocá-la pra fora de casa, o bebê ainda era de peito, uma judiaria. Dizem que ela vagava ao redor da casa, no mato, chorando e chamando pelo filho. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, era época de eleição municipal, e haja mate pra receber tantas visitas dos candidatos. Foi numa dessas visitas que encontraram os corpos do pai e do filho, retalhados, talvez tenha sido com um machado, ninguém nunca soube direito. Dias depois o corpo dela, pendurado em uma árvore, nas próprias terras. O candidato que encontrou os corpos perdeu as eleições, não demorou pro povo começar a dizer que era maldição da finada Cibele.

            Escutamos o toque de um telefone, não sabia que eles tinham um, mais do que escutar, eu senti o toque. Coloquei a mão no bolso e tirei um celular. Atendi como se aquele aparelho pudesse me morder. Era meu chefe, perguntava algo sobre o andamento da avaliação do solo. Desliguei. Subi para o quarto, estou aqui até agora e já anoiteceu. Agora já não sei mais nem quando estou, nem onde estive. Escuto sussurros, mas dessa vez não é a madeira e sim o casal que conversa e eu posso imaginar o assunto.

            Estou escutando o choro novamente, começou baixo, agora aumenta. Não é o filho do casal, é o mesmo choro da casa onde nem sei se estive. Não tenho para onde ir e devo estar completamente louco. Vou seguir o barulho do pranto, desço pra sala e passo para a cozinha, a porta está aberta, uma figura alta e elegante me olha do umbral, Cibele tem o rosto sereno e me estende a mão. Eu sou um homem que não sabe mais qual o seu presente, mas o futuro está decidido. Estendo a mão.