quinta-feira, 27 de março de 2014

UMA OUTRA MULHER


 
Taiasmin Ohnmacht

 

 

− Não é isso que procuro. − folheia a revista com desinteresse. – Quero algo que me adivinhe.

− Eu te adivinho.

− Tu não sabe de onde eu venho.

− Mas sei pra onde quero te levar.

Ainda sente o cheiro dela em suas mãos. Enquanto aguarda o sinal verde, Samuel recorda os olhos azuis. Pouco importa se uma das lentes de contato caiu durante a transa. O corpo da jovem que chegou a sua loja procurando a Sétimo Sentido e terminou nua ao seu lado em um quarto de motel, era bastante real. E mesmo assim, inacreditável.

            Pela primeira vez percorre o caminho entre o estacionamento e o edifício onde mora sem praguejar contra a esposa e a escolha que ela fizera por um apartamento em edifício antigo, sem vaga de garagem; tudo para morarem próximos ao colégio de João.

Anda a passos lentos e despreocupados gozando o silêncio da noite e a rua vazia para reviver a tarde que tivera. Voltaria a ver aquela mulher? Qual era mesmo o seu nome? Não consegue lembrar, tem quase certeza de terem conversado apenas o suficiente para confirmarem o desejo mútuo.

            Ao aproximar-se da porta de seu apartamento, escuta vozes estranhas. Quem os estaria visitando àquela hora? Samuel só quer chegar em casa e se isolar. Estranha a dificuldade em girar a chave. Silvia teria deixado a chave na fechadura pelo lado de dentro para certificar-se da hora em que ele chegaria em casa? É ciumenta o suficiente para tal artimanha. Espera e a porta é aberta por um menino. Não sabe quem é aquela criança. Samuel vai entrando, o menino o olha assustado, a sala está diferente. O que Silvia andara fazendo? Quando abre a boca para chamá-la, uma voz feminina grita da cozinha:

− Gus, quem é na porta?

            Gus? Que voz é aquela? E Silvia? E João?

− Oi, sou eu. – Samuel falou um pouco confuso.

            Em seguida uma mulher aparece na sala, puxa o menino para perto de si e pergunta:

− O que o senhor quer?

− Oi, eu sou o Samuel, marido da Silvia. Onde ela está?

            A mulher treme levemente enquanto o menino se agarra a suas pernas.

− Não sei de quem o senhor está falando. Deve ser algum engano. – Em seguida ela grita – Gerson!

            Samuel recua até o corredor e confirma o número 203, de seu apartamento. O mesmo 3 que ele arrumou no dia seguinte à primeira noite dele e de Silvia na nova residência. Quando a fome os obrigou a saírem da cama, resolveram ir a um pequeno restaurante na mesma rua do edifício. Quando ele fechou a porta, percebeu que o 3 estava pendurado apenas pela parte de baixo, virado como a escrita espelhada de uma criança. Por muito tempo eles brincaram que veriam o 3 virado após cada noite de amor. Com o passar dos anos, a brincadeira perdeu a graça.

− Qual é, cara! Não entendeu o que minha mulher disse?

            A voz grave o faz voltar o olhar novamente para o interior do apartamento a tempo de ver um homem com a aparência de quem recém acordou fechar a porta, Samuel, zonzo, ainda tem forças para dizer que vai chamar a polícia, mas o homem, de dentro do apartamento, grita de volta idêntica ameaça.

            Samuel sai para a rua em busca de ar fresco. Em frente ao edifício, olha para as janelas, todas elas, dos três andares, olham para ele. Não reconhece um vizinho sequer. Pergunta-se onde está, a própria rua lhe parece estranha.

            Que horas são? Madrugada, certamente. Diante de todos os acontecimentos e após a oitava cerveja, o tempo é o que menos importa. Samuel está no bar vizinho ao prédio (onde mora?). Olha para o celular ao lado do copo, espantado pela inutilidade do aparelho em fazer ligações. A mensagem de número inexistente, quando tenta ligar para o telefone fixo de sua casa e a voz mecânica de Silvia, pedindo para deixar recado após o sinal, se tornam zombeteiras após a décima tentativa. Usa o iphone para entrar no facebook, olha o perfil de Silvia, que foto era aquela? Sim, é Silvia, mas ele não conhece a foto e algo captado por ela tornam aquela uma outra mulher, não a sua. Tem a vaga sensação de ter visto aquele olhar, em algum momento, mas não consegue recordar. De qualquer modo, não sabe descrever a pessoa com quem convive. Silvia é alguém com quem divide o dia-a-dia, costuma estar ali, eles facilitam a vida um do outro, mas agora ela não está e o mundo é um caos.

            Faz sinal a César, pedindo mais uma lata de cerveja. Pelo menos no bar tudo continua igual, o garçom é o mesmo e o reconhece. Volta a olhar intrigado para o celular, quando sente um perfume feminino, ergue a cabeça e vê ela que lhe estende a lata de cerveja e oferece um sorriso acolhedor. Samuel levanta-se da cadeira.

− Tu? Aqui?

            Ela, sem dúvida, embora com os olhos castanhos. Fica olhando para ele, sem nada dizer. Samuel a convida para sentar e beber.

− Eu não posso. – ela responde sem desfazer o sorriso tranquilo, vira-se e sai do bar.

            Samuel olha para César; ela trabalha no bar? Espera que alguém a impeça de deixar o lugar, mas César concentra-se em limpar as mesas recém liberadas. Decide sair correndo atrás dela que já se afastou uns 200 metros. Fica espantado com a distância que ela percorreu em tão pouco tempo.

− Vem comigo? – ela pergunta.

            Não parece necessário a Samuel responder, apenas caminha, tentando acompanhar o ritmo rápido. Tem medo de que ela evapore a qualquer momento. A noite permite todo tipo de dissolução. Ela chega ao carro estacionado na Protásio Alves, da zona leste para a zona sul. As luzes e sombras da cidade e a velocidade do carro o questionam sobre o tempo, mas as mãos dela no volante e no câmbio fazem com que ele esqueça todas as perguntas. Não há conversa, apenas a confiança de que existe algum lugar para onde ir.

            Estacionam em uma praia de Belém Novo, Samuel não reconhece o local, desde criança não voltava àquela região da cidade. Algumas vezes seu pai reunia a família para fazerem churrasco na praia do Leblon. Naquela época, ele e seus dois irmãos desciam do fusca em algazarra para banharem-se nas águas do Guaíba. Agora, ele escuta uma gira. Ela sai do carro e vai em direção à areia, ele olha com mais atenção adiante e vê o movimento de pessoas vestidas de branco próximas às águas do rio. Samuel a segue, ela junta-se ao grupo e canta os pontos. Não está completamente escuro, a iluminação da rua clareia um pouco a praia, a luz das velas contribui com o clima mágico. Ela está ainda mais linda, mas não é a única, há outras mulheres atraentes também. Uma parece estar incorporada. Dança e gira, com sua roupa vermelha, parece uma cigana. Um grupo de três homens dançam ao seu redor. O ritual é cheio de sensualidade. Samuel se aproxima do grupo. Silvia. Não é Silvia, é Silvia. Sente-se tonto, talvez desmaie, talvez vomite. Silvia/não-Silvia tem completo domínio do corpo e do ritmo, dança com confiança e prazer. Nunca a viu assim antes. O que estão fazendo com ele? Isso é uma armação? De quem? Ele se junta ao grupo e dança com a mulher – que pode ser a dele – e a deseja como se não fosse sua.

Alguém o segura firme pelo braço – Ela.

− Deixa. A gente tem que ser livre pra viver.

            Ela fala bem de perto a ele. Os lábios roçam sua orelha. Cheiro de Jasmim.

− Vamos.

            Segura-o firme, dessa vez pela mão. Ele a segue.

− Qual o teu nome?

− Eu sou filha de Iemanjá. E tu?

− Não sei. Ninguém nunca me disse.

            Ela parece divertir-se em conduzi-lo pela noite.

            Afastados do grupo, mas ainda escutando o cântico dos pontos, se amam no encontro da areia com o rio. Eles são parte da suave marola, causadores, causa, a própria coisa. Elementais.

            A água no rosto acorda Samuel, dessa vez não do rio, mas da chuva. O dia está cinza e apesar da garoa fina que cai sobre Porto Alegre, o mormaço continua. Ele olha ao redor e está só. De quando em quando, passa um carro pela avenida. Pega o celular, 6 horas. Levanta molhado, sujo. Ainda a roupa social de trabalho do dia anterior, agora irreconhecível. Anda um pouco e enxerga os restos do ritual da noite. Oferendas, entre elas uma garrafa de espumante. Pensa em pegar, precisa beber algo, mas desiste. Não se mexe no que é do santo.

            Encontra nos bolsos a carteira com documentos, cartões e dinheiro. Anda um pouco, pega lotação e ônibus procurando ignorar o olhar curioso de motoristas e passageiros. Chega ao edifício de três andares e olha para as janelas. Algumas abertas, outras não. A rua começa a movimentar-se na manhã de sábado. Em frente a porta do apartamento para e olha, coloca a chave com facilidade na fechadura e gira, mas sabe que não está voltando para casa.