terça-feira, 9 de dezembro de 2014

GOSTOSAS



Taiasmin Ohnmacht
 
Sim, eu a comi.
E como resistir? Pernas roliças valorizadas pela minissaia de jeans e salto alto e a bunda grande empinada sugerindo fartura de carnes. Desde o primeiro momento em que a vi, percebi que era perfeita! Exatamente o tipo de mulher de que gosto. Pele macia e uma leve saliência abdominal. Não tenho qualquer preconceito quanto à cor da pele, o que importa é a essência, mas sempre fui muito exigente, não gosto das magras, mas tampouco das gordas. Há um meio termo difícil de descrever. Costumo prestar atenção às costas na linha da cintura. Nem sempre a roupa permite observar, mas se a sobra de gordura ali é grande, nem me aproximo; se a linha das costas é perfeitamente paralela, sem curvas e com os ossos da coluna visíveis, também não me interesso.
Passei uma semana agradando aquela mulher, nos encontramos em bares e restaurantes, ela bebia bem e eu gostava disso, a cada drink eu ficava mais louco por ela, nada como comer uma mulher alcoolizada. Nem sempre consigo, encontro muitas cheias de pudores, com medo de que eu vá pensar mal delas se beberem demais, ou com medo de perderem o controle do encontro. Aí invento um brinde, uma comemoração qualquer. Mas com essa última foi perfeito! Deliciosa, do início ao fim.
Sou um especialista em mulheres, conheço de todos os tipos e sei quando vão render momentos de maior prazer ou não. Idade? Tenho preferência, sim. É quando as carnes estão firmes, sabe? Ali pelos vinte anos, até uns trinta, no máximo. Seios durinhos e generosos. Bom, quanto aos seios, confesso que o silicone me enganou algumas vezes, aí é uma decepção só, quando estou pronto para abocanhá-lo. Se o resto for bom, ainda me consolo pensando que nem tudo é perfeito.
Pois então, eu a comi e foi um banquete. Saboreei cada centímetro daquela mulher, foram horas e mais horas de prazer intenso na mesa do jantar. Parei para alguns cochilos, porque ninguém é de ferro. Agora acabou e tenho que procurar por outra. Nunca armazeno carne, o gosto não é o mesmo, nem tenho tanto espaço no freezer. E eu gosto mesmo é de carne fresca.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CRÔNICA DE UM DESEJO


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Eu o desejo amante de um amor já perdido. Sou daquelas pessoas que inventam amores e que desejam o desejo.

            Não quero falar dos motivos, nem saberia. Quero dizer que imagino, ao lado dele, um mundo à parte, protegido do cotidiano. Não suporto dias previsíveis, nem vida repetitiva. Quero ser arrebatada por algo incontrolável, que me tire do eixo e me torne outra, porque tem algo em mim que eu mesma não aguento.

 

            Ele deixou visível uma intimidade com a namorada e eu comentei. Sim, fui inconveniente. Sim, me excedi. Sim, quero entrar pelas frestas que há entre os dois e sorver os fluídos que trocam, quero ser ela e ter o melhor dele, quero ser ela e deixar de ser também.

(e aquele que se chama meu marido ignora o meu desejo. Ele pensa que sabe e atende ao que pensa que eu quero. Saberia um pouco mais se me escutasse)

            Espero todos os dias pelas palavras que ele digita, que os seus dedos se acomodem em meu corpo e encham meu corpo/copo de perguntas bobas, de perguntas vazias, de um querer que me tome.

            Essa mania de inventar amores sempre acaba me deixando com um gosto amargo na boca. É bom que eu me lembre: não sou uma opção para ele (nem ele para mim), posso ser um acidente, não uma opção.

            Não conseguimos ser nem amantes, nem amigos. O carinho que temos, o gosto por conversar e as afinidades, são contaminados pela atração. E toda palavra tem mais de um sentido, e lemos os vários sentidos fingindo não ler, e gozamos nossa fingida seriedade e gozamos. Estou intoxicada dele, estou intoxicada com meu desejo. Ao não consumi-lo, consumo a mim.

            Entre conversas e silêncios, vou compondo minha idealização. Todas as conversas com ele são belas, mas às vezes terminamos mais amigos que amantes e não sei se me agrado. Sexo com ele é uma fantasia, talvez unilateral, mas o que mais me encanta é pensar que ele possa me desejar, que eu possa seduzi-lo. De qualquer modo, é possível que exista mais sexo em nossas conversas do que jamais poderia se dar em um encontro físico.

            Agora dei para ter ciúme dele! Não é exatamente de outras mulheres, mas de que ele encontre vida em outro lugar que não seja em mim. Esse é um mal do qual padecem todas as mulheres, sobretudo as apaixonadas.

            Escrevo essas linhas para perverter desencontro em encontro, com o açoite da palavra. Talvez aqui eu tenha o que essencial dele e que só possa ser encontrado em mim.

            Hoje pensei estar livre dele, mas percebi que não, estou apenas longe. Suspeito que ele seja o próprio desejo. Às vezes sei o que ele anda fazendo, outras não. Ele nunca mais me disse estar com saudades e eu me apego a palavras que a barra de rolagem leva adiante. Não, nunca estou indiferente. O meu desejo não está à deriva, mas afrouxado.

 

            Eu me conformo com o dia a dia e com o amor que posso ter. A vida não é grande coisa, nem pra mim nem pra ninguém.

            Não falo em amor, mas em uma certa necessidade de existir para além da vida comum e por isso escrevo. Ninguém pode suprir o meu desejo para o fantástico e, assim, fico o inventando em meu cotidiano.

            Vou enviar para ele todas os poemas que escrevi.

            Eu não tenho o direito. Eu não o tenho direito.

            Então é isso, estamos apartados. Não importam as palavras, ele sabe e eu sei que a escolha foi pelo fim. Não foi surpreendente, foi medíocre. Do jeito que se esperava desde o princípio. Surpreendente seria se tivéssemos nos permitido.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

NAS SOMBRAS DA REDENÇÃO




Taiasmin Ohnmacht

 

─ Eu tenho aula hoje, esqueceu?

─ Sábado à noite?

            É muita desfaçatez, ela fala como se tudo fosse normal. Sábado à noite, véspera de finados. Aula de quê? Que maldito curso de idiomas é esse?

            Enquanto ela se arruma, eu me sinto um idiota. Deveria ter colocado um detetive atrás dela como o Vilmar sugeriu, mas nunca confiei na opinião do meu sócio sobre as mulheres; para ele, todas são vagabundas. E vou descobrindo que ele tem razão.

            Ela se despede com um beijo rápido, bonita como sempre em sua esvoaçante saia branca, e eu a odeio por sua beleza. Espero ela sair e vou atrás. Ridículo! Um homem de quarenta e dois anos se prestando a esse papel, mas mais ridículo é saber que minha mulher me trai e não fazer nada.

            Desço pelo elevador de serviço e chego antes na calçada, consigo um táxi com facilidade e espero ela sair. Sei que demora porque acaba de se maquiar no carro. Ela sai da garagem e eu a sigo, pedindo a todos os santos para estar errado. O taxista logo deduz o que se passa e parece dirigir com mais presteza enquanto me conta que já passou por situação semelhante e também do caos em que sua vida se transformou depois da separação. O carro entra em um estacionamento do Bom Fim e em seguida ela sai com a bolsa e uma sacola que desconheço. Desembarco do táxi e o motorista penalizado não cobra a corrida.

─ Cara, eu sei que é difícil, mas perdoa. Se é ruim com elas, pior sem.

            Existe legítima defesa da honra contra taxistas metidos?

            Aproveito as sombras das ruas mal iluminadas para me esconder. Só consigo imaginar que está indo para um motel. Na verdade, espero que ela vá para um motel, a dúvida me tortura mais do que a certeza.

            Ela anda tranquila pela noite vazia e se fosse uma estranha que passasse casualmente por mim, eu me apaixonaria de novo. E o que mais dói é que, para algum outro, ela é uma encantadora estranha, mas nunca mais para mim.

            Não acredito no que vejo! Quem é essa mulher? Não pode ser a minha! Oito horas da noite e ela está entrando na Redenção! Corro para abraça-la e protegê-la? Digo que podemos esquecer tudo e a convido para voltarmos juntos para casa?

            Ela para entre duas árvores, lança um olhar suspeito ao redor e desaparece na escuridão do parque. Tomara que morra! Apesar disso a sigo e talvez morramos os dois. Enquanto meus olhos se acostumam à escuridão, fico imaginando em quanta merda estou pisando e em quanta camisinha usada. Felizmente vim com o sapato que ela me deu no meu aniversário e do qual apenas fingi gostar.

            Agora ela é uma sombra de flutuante pano branco. A personificação de um espectro. De que perversão essa mulher padece? Onde vai encontrar seu amante? Vejo luzes fracas e tremulantes à distância. Sons abafados de vozes. É para lá que ela está indo? Quantos são esses amantes? Ela se aproxima, todos a cumprimentam. Enquanto estão concentrados na alegria do encontro, eu consigo me aproximar mais. Estou a uns dez metros deles, atrás de um jacarandá. Há velas espalhadas por toda a parte, reconheço um pouco atrás do grupo os pontos cardeais, enquanto vou perdendo todas as minhas certezas e o meu norte. É um grupo grande, alguns tiram a roupa, outros colocam. Mas já descartei a hipótese de ser uma suruba. Com dificuldade localizo ela, trocando de roupa. Na verdade, a saia é a mesma, mas agora há uma blusa branca solta e cheia de babados, muitos colares no pescoço. Alguns homens começam a tocar tambores e outras mulheres cantam. Volto a enxerga-la, mas não é ela. Fuma um charuto e dança como uma velha. Percebo que de repente para, voltada a minha direção. Não é possível! Parece me ver! Aponta o charuto para mim e solta uma longa e sonora gargalhada.

            Corro e por pouco não tropeço. Choro e rio ao mesmo tempo. Sair do parque foi mais fácil do que entrar. Não há nada mais que possa me surpreender nessa noite. Vou pegar um táxi e ir para casa. Preciso fazer a janta. Será que ela vai chegar com fome?

domingo, 31 de agosto de 2014

EXÉQUIAS

Taiasmin Ohnmacht

 

O dia amanheceu pleno de morte em uma manhã cansada e conformada com o passar das horas.
Nos olhos dela a perplexidade de uma atriz que foi abandonada no desenrolar de sua tragédia.
Sentimentos? Que sentimento? Alívio? Ódio? Dor? Tudo e nada num imenso vazio. Os sentidos desmoronavam.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

E OS OLHOS JÁ ESTAVAM PERDIDOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Sentado em uma cadeira incômoda, Daniel pensa que nem para morrer tem sorte. Espera pela partida de sua tia, que pode dar-se a qualquer momento. Ela está na UTI e ele em uma visita só-para-constar. Enfisema pulmonar. Não é uma doença genética. Até nisso a família lhe foi falha. Mesmo assim, foi visitar a insignificante tia, anda tão pesado que não precisa carregar mais as acusações maternas de negligência com os parentes.

            Sente uma indiferença libertadora frente à morte. Sobretudo à sua. Não há coisa alguma que ela possa tirar-lhe, na verdade o libertaria de uma série de fracassos e frustrações. Daniel pensa no Dilúvio, se fosse mais do que um arroio, poderia resolver seus problemas ali mesmo, afinal passa bem em frente ao hospital. O Guaíba seria uma boa solução, sendo rio ou não, mas falta-lhe energia para andar até lá.

            Desanimado, pensa na rotina de trabalho humilhante que tem pela frente, escrever textos inúteis sobre esportes pouco importantes e que certamente serão severamente criticados pelo chefe de redação. Ir para casa não é melhor; enfrentar a ausência afetiva da mulher, que tem um amante ou procura por um. O filho, único motivo de alegria que sobrara, em intercâmbio na Europa, já dera sinais que não voltaria tão cedo.

            Daniel levanta-se do banco, fim de visita e a tia continua com um fio de vida. Ele deseja que não dure mais uma semana, senão será forçado a uma nova encenação de apreço familiar. Olha para a porta de saída do hospital e vê o dia ensolarado zombar de sua insignificância. Sente-se um afogado debatendo-se por um sopro de vida.

            Tudo ainda muito branco. Abre os olhos, não é o único que olha. Uma enfermeira o olha com preocupação, mas tem certeza de que há um par de olhos a mais na sala onde estão só os dois. Esforça-se para sentar e tem a leve impressão de fazer isso com mais facilidade do que poderia supor.

─ Calma, levanta devagar senão o senhor pode ter uma nova vertigem.

─ Eu não sei o que houve. Estava saindo do hospital.

─ O senhor desmaiou próximo à recepção. Mas sua pressão está bem e a glicose também. Sem qualquer alteração.

            Daniel quer sair dali, mas também tem a esperança de estar com algum grave mal. Surpreende-se olhando para os seios da enfermeira que o ajuda a se levantar. Ela percebe seu olhar.

─ Bom, já estás bem melhor. Tem uma lancheria no segundo andar, passa lá e come alguma coisa. Se tiveres um novo desmaio é melhor consultar um médico.

            O que mais perturba Daniel é perceber que não olhou para os seios dela, o que de fato ocorrera é uma nova percepção, algo que ele não consegue definir bem, ele viu a si mesmo olhar para os seios dela como se fosse apenas um observador da cena.

            Anda até o carro sentindo-se fora de esquadro. É como se não fizesse parte do mundo, mas ao mesmo tempo transita pela vida com a mesma desenvoltura de sempre. A mão de sempre coloca a chave na ignição, o pé esquerdo na embreagem. Ambos estranhos. Antes de partir, olha-se no espelho retrovisor e se assusta. É como entrar em uma daquelas cabines para provar roupas nas lojas. Lembra-se de algumas que tinham espelhos em duas paredes paralelas que multiplicavam a imagem ao infinito. Ele se olha e vê a si e a alguém que o olha e ele se vê nesse outro olhar. Aterrorizado, Daniel fecha os olhos e encosta-se no banco com força. Bateu a cabeça quando desmaiou no hospital, ele pensa procurando encontrar uma explicação. Algo em seu cérebro se soltou e apagou. Ou se acendeu. É surpreendido pelo toque do próprio celular.

─ Daniel, por onde anda? A gente tem que fechar as pautas da próxima edição.

            Silêncio, não sabe o que responder ao chefe. Uma mão que já não reconhece, engata a marcha e, com a ajuda de um corpo que fica cada vez mais estranho, dá partida ao carro em direção à redação do jornal.

            Olha a tudo e todos com um espanto que não é seu, ele mesmo só se espanta com a estranheza do corpo e com voracidade do outro olhar. Meia hora passada na frente do computador, sem uma palavra escrita. Daniel precisa produzir um texto sobre uma partida de futebol entre dois times do interior. Nunca apreciou futebol ou qualquer outro esporte, durante longo tempo sonhou em ser repórter investigativo, agora, com dez anos de trabalho pela frente ainda, sonha apenas com a aposentadoria.

            Decide escrever sobre o inusitado de suas sensações, o editor chefe que espere. Qualquer coisa, alegaria um mal-estar e iria embora mais cedo, mas quando se posiciona para digitar, vê os olhos lerem com avidez o material de suporte que recebeu para escrever o pequeno texto. Trata-se de uma lista de acontecimentos comuns em qualquer jogo, marcados pela contagem de tempo. Aos 12 minutos, escanteio; aos 23 minutos, reposição da bola; aos 30 minutos falta. Daniel percebe uma animação que o transcende e os dedos, que não lhe pertencem mais, digitam um texto de mais de 400 caracteres e o enviam ao chefe de redação.

─ Que piada é essa Daniel? Está tentando derrubar nosso cronista? Eu te peço um texto de 50 a 70 caracteres, apenas uma nota! E tu me vem com uma crônica! Volta lá e pratica a salutar arte do corte.

            Antes de voltar para a sua mesa, o seu chefe volta a chama-lo:

─ Mas tenho que admitir, é o melhor texto que já escreveste. Parabéns! Usa esse teu talento no próximo grenal, aí sim te consigo espaço.

            Grenal? A vontade de morrer de Daniel é substituída por raiva, uma raiva de algo dentro de si que não reconhece e que usurpa seu lugar perante os outros. Vai para casa dirigindo o carro. Sim, ele. Não a coisa que o habita. Pela primeira vez em muito tempo, dirige com energia e determinação.

            O que pode fazer? Procurar um analista? Um terreiro de umbanda? Pesquisar no google? Chega em casa e encontra sua mulher na cozinha preparando a janta. Desleixada, como de costume, o olha com uma expressão de tédio. Logo observa seu olhar de gula percorrer o corpo dela. Ela tagarela sobre sua rotina de advogada, os processos em que trabalha e os clientes que tem. Daniel permanece calado porque a boca ainda lhe pertence, mas percebe um interesse inédito pelos assuntos da mulher. Perdera os ouvidos.

            À noite, na cama, começa a refletir na guerra que vive. O inimigo o pegou de surpresa e conquistou vários territórios de assalto, agora ele tem que pensar em como retomar seus domínios. Não gosta daquela presença, precisa lutar por si e por seu corpo. Pela manhã, Daniel fica observando a esposa se arrumar para o trabalho, sente atração pelo corpo de mulher de meia-idade.

            Na semana seguinte, Daniel é expectador de sua rotina de trabalho, toma cafezinho com os colegas, discute ativamente as pautas da seção de esportes e escreve com prazer os textos que lhe são exigidos. Luta para retomar o controle, tenta cruzar os braços, imobilizar os dedos no teclado, mas tudo o que consegue é um ou outro erro ortográfico, nada mais. Decide retornar ao hospital, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que começou lá. Talvez um espírito, talvez um demônio tenha se apossado de seu corpo e mudado sua trajetória de vida. Talvez uma máquina de radiografia defeituosa tenha vazado radiação, alterando seu DNA.

            Daniel entra no carro, não sabe o que fará quando chegar ao hospital, mas sabe que deve ir para lá. Estaciona na garagem de seu prédio, sobe os seis andares de elevador. Abre a porta, a mulher novamente está na cozinha, vai até ela e dá um apaixonado beijo. Fazem sexo ali mesmo, como não acontecia há vinte anos. No início ela resiste um pouco, mas depois corresponde com igual desejo.

            Na manhã seguinte, a esposa abre os olhos e vê o marido já acordado. Aninha-se ao corpo dele e fala:

─ Daniel, eu ainda te amo. E me surpreendo com isso.

Ele beija os cabelos dela e sorri, já está começando a se acostumar com esse nome.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ARAPUÁ


Taiasmin Ohnmacht

 


Dois dias fora daquele lugar. Após um mês de loucura começo a me sentir melhor. O mundo volta ao normal, agradável e previsível.

            Cheiro de comida. Devo descer para o jantar, isso não é um hotel e a família Rogovski, que me hospeda, vai ficar ofendida se eu passar mais tempo recluso nesse quarto.

            O queixo do menino sentado à minha frente mal alcança à beirada da mesa e ele me olha com curiosidade por trás do vapor da sopa quente. O homem que me acolheu fala sem parar sobre a safra do milho, soja, feijão. Acho que só aceitou me receber porque sou agrônomo. Na verdade, nem sei bem como a filha dele me encontrou, muito menos o que disse aos pais. Tudo de que me lembro é do gosto de terra na boca e do desejo de que a morte me tirasse rápido dali.

 

            É madrugada e acordo assustado com o barulho do choro, deve ser o filho pequeno do casal. Não consigo voltar a adormecer. Casas de madeira sussurram à noite. Quando fugi da outra, ela gritava. Eu corri tanto que atravessei a divisa entre Arapuá e Centenário, distante oito quilômetros do meu sítio, quando não aguentei mais caí exausto, mas ainda escutando a casa. Acredito que foi assim que Cibele me encontrou, desacordado.

            Arapuá me pareceu um sonho. Município com menos de mil habitantes, entre Áurea, Carlos Gomes e Centenário. A primeira vez em que estive lá foi na década de 90, quando trabalhava para a EMBRAPA e fui enviado para fazer um estudo do solo no município de Áurea. Naquela época, Arapuá ainda não havia se emancipado, mas já era uma localidade tão encantadora que decidi me mudar para lá assim que me aposentasse. Como sou sozinho, dependi apenas de minha vontade para realizar esse sonho, quase uma década depois.

 

            Novamente choro de criança. Não tive filhos, mas esse menino não está um pouco crescido para manhas noturnas? Daqui a pouco vai começar a amanhecer, melhor tentar dormir mais um pouco.

            Eu vi Cibele apenas uma vez, quando recobrei a consciência no dia seguinte, ainda muito confuso. Senti um cheiro de azedo e me assustei, pensei estar de volta à casa, então ela me tranquilizou e me explicou onde eu estava, depois saiu e não a vi mais.

 

            Não demorei para encontrar um imóvel. Assim que retornei à cidade com intenção de ficar, hospedei-me no maior estabelecimento comercial de Arapuá, uma mistura de mercado, loja de roupas e hotel. O dono era um senhor falante e simpático, com o sotaque carregado da região, ele limpava as unhas com a rosca de um abridor de vinhos enquanto conversávamos e quando soube do meu interesse em me mudar, começou a falar das terras disponíveis na pequena cidade. Ele falava alto, para mim e para os seus clientes habituais que tinham aquele comércio como ponto de encontro, às vezes eles entravam na conversa com algum comentário que deveria ser espirituoso, mas que eu não entendia, pois não conhecia nem o lugar, nem as pessoas. Ele me falou de um sítio há uns quatro quilômetros de distância do centro da cidade, uma localidade chamada Lajeado do Leite Rubro.

─ Do Leito Rubro?  ─ não foi bem uma pergunta, eu praticamente corrigi o homem. Ele parou de limpar as unhas e o olhar que me lançou fez com que me sentisse um menino ingênuo.

 

            As jantas da família são bem servidas, comida caseira feita no fogão à lenha. Por onde andará Cibele? Quero perguntar, mas não ouso, não fica bem um velho ficar questionando por onde anda uma mocinha. O menino continua com seu olhar curioso por trás do prato. A mãe dele é silenciosa, mas às vezes me sorri com simpatia. Estou me sentindo cada vez melhor, hoje meu anfitrião me levou para ver suas terras que prometem uma boa safra de trigo e soja. Está chegando a hora de ir embora, não volto para Arapuá, preciso encontrar outro modo de vender meus hectares malditos. Os móveis e meus poucos pertences ficam lá. Nunca fui apegado a coisas e não vai ser agora que vou me apegar.

 

            Acordo assustado, sonhei com o lajeado e as águas estavam realmente vermelhas. No meu sonho o choro era alto, mas agora percebo que é o menino novamente, e o choro é baixo, quase contido. Melhor voltar a dormir, mas a casa sussurra.

 

            A casa do sítio, em Arapuá, era de madeira e velha. Arrumei o que pude com algum conhecimento de marcenaria que herdei do meu pai, mas a precariedade de minhas ferramentas comprometeu a qualidade do trabalho. Mesmo assim fiquei feliz com meu novo lugar no mundo. Planejei solicitar licença ambiental para cortar algumas árvores próximas para reduzir as sombras e a umidade da casa. A única coisa que me incomodava de fato era um estranho cheiro de leite azedo que vinha do pequeno riacho que passava pela propriedade. Algumas vezes era mais forte, outras nem se sentia, tudo dependia da direção do vento.

            Vivi na casa por um mês considerando alguns ruídos incompreensíveis como excentricidades da madeira e do vento. Até começar o choro.

 

            Meu Deus! Onde está o pesadelo? Na casa ou em mim? Hoje saí para a lavoura, no meio da florada da soja criei coragem e perguntei por Cibele. O sr. Rogovski me olhou com expressão de espanto. Interpretei aquele olhar, como uma resposta a uma pergunta inconveniente e comecei a explicar a minha curiosidade como natural, considerando que ele me ajudou em um momento difícil.

─ Eu não tenho filha. Só o meu guri, mesmo.

            O mundo girou ao meu redor e as coisas foram ficando ainda mais estranhas. Tentei explicar que estava falando da moça que me levara até sua casa, então ele deu uma risada um pouco constrangida e disse:

─ Não posso mais oferecer ao senhor minha cachaça artesanal. A mulher vive me dizendo que é muito forte, que só eu pra tomar aquilo.

─ Como cheguei até aqui? ─ questionei já muito nervoso.

─ Com suas pernas, dias atrás. O prefeito me avisou que a EMBRAPA ia mandar um agrônomo, até me disse o seu nome e pediu que eu hospedasse o senhor por uns dias.

─ Mas eu não trabalho mais lá, estou aposentado há um ano.

─ Como não? E o senhor tem feito o que nesses últimos dias? Quantas terras já visitamos na cidade?

            Não aguentei. Saí em direção à casa da família Rogovski e nem me importei em deixar meu anfitrião atônito ali. Quando entrei na cozinha, o fogão à lenha esquentava a casa preparando o almoço. Perguntei para sra. Rogovski se ela conhecia alguma Cibele, de Arapuá ou de Centenário ou de qualquer outra cidade da região. Ela me deu mais atenção do que qualquer outra vez, talvez por perceber que estava transtornado.

─ Não conheço, não. Mas se conhecesse não seria de Arapuá. Ninguém daria esse nome pra uma menina por lá, depois da história desgraçada daquela mãe.

            De repente, comecei a me questionar quando Cibele havia me dito seu nome. Acho que o escutei pela primeira vez da casa, quando os sussurros das madeiras começaram a formar palavras e por fim gritos. Cibele era um nome que as tábuas rangiam. Havia outros, mas o mais assustador era o barulho do machado se encravando na casa, rasgando as paredes. No último dia, antes de sair correndo, pude ver filetes de sangue escorrerem pela lâmpada da sala e pingarem sobre a mesa e o choro da criança era de pavor.

─ Não se sabe se o que houve entre ele e a mulher, ─ sra. Rogovski continuava o relato─ mas ele resolveu colocá-la pra fora de casa, o bebê ainda era de peito, uma judiaria. Dizem que ela vagava ao redor da casa, no mato, chorando e chamando pelo filho. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, era época de eleição municipal, e haja mate pra receber tantas visitas dos candidatos. Foi numa dessas visitas que encontraram os corpos do pai e do filho, retalhados, talvez tenha sido com um machado, ninguém nunca soube direito. Dias depois o corpo dela, pendurado em uma árvore, nas próprias terras. O candidato que encontrou os corpos perdeu as eleições, não demorou pro povo começar a dizer que era maldição da finada Cibele.

            Escutamos o toque de um telefone, não sabia que eles tinham um, mais do que escutar, eu senti o toque. Coloquei a mão no bolso e tirei um celular. Atendi como se aquele aparelho pudesse me morder. Era meu chefe, perguntava algo sobre o andamento da avaliação do solo. Desliguei. Subi para o quarto, estou aqui até agora e já anoiteceu. Agora já não sei mais nem quando estou, nem onde estive. Escuto sussurros, mas dessa vez não é a madeira e sim o casal que conversa e eu posso imaginar o assunto.

            Estou escutando o choro novamente, começou baixo, agora aumenta. Não é o filho do casal, é o mesmo choro da casa onde nem sei se estive. Não tenho para onde ir e devo estar completamente louco. Vou seguir o barulho do pranto, desço pra sala e passo para a cozinha, a porta está aberta, uma figura alta e elegante me olha do umbral, Cibele tem o rosto sereno e me estende a mão. Eu sou um homem que não sabe mais qual o seu presente, mas o futuro está decidido. Estendo a mão.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

ÚLTIMOS MOMENTOS


Taiasmin Ohnmacht

 

 
Raquel? Esse nome deveria significar algo, mas ele não lembra o quê. Sussurra para si a necessidade do ataque. Não pode esquecer, não pode perder o último elo com sua história. Anda atordoado, busca no ambiente familiar de sua casa algum controle. Abre a geladeira e, por segundos, vê o corpo gelado. De quem, mesmo? Quer gritar, sabe que deve gritar, mas talvez já o tenha feito. Pensa em pegar uma cerveja, mas muda de ideia, não pode pôr em risco o pouco de sanidade que ainda tem.

            A água gelada em sua boca provoca outra lembrança, desta vez uma frase:

─ Raquel foi a última palavra que ele disse.

            Mas de quem estavam falando? Quem era ele? E quem era Raquel? As perguntas são muitas e há a íntima certeza de que as respostas o conduzirão a um abismo. Ele decide não pensar, é só matar e pronto. Tudo no lugar e nenhum amanhã. Sobretudo para Raquel.

            Abre o armário de mantimentos e pega o 38. Sempre soube que havia uma arma lá? Coloca o revolver na cintura e o esconde sob a jaqueta. Não teme ser pego pela polícia, teme apenas não chegar a seu destino.

            Não está longe, apenas 15 minutos de caminhada. Durante o trajeto, busca no rosto de cada homem por quem cruza um outro rosto. Escuta alguém gritar por Antônio. Não é o seu nome, olha para trás, apenas estranhos. Reconhece a voz, é a sua, não percebeu o movimento dos próprios lábios.

            Chega ao seu destino e lembra o suficiente para ter certeza de que deve ir até o fim. Espera ver sangue nas mãos dela, mas não há. Até o sangue de Antônio ela lhe roubou. Não pensa duas vezes, descarrega a arma em Raquel e ela cai na calçada, entre clientes e outros travestis.

quinta-feira, 27 de março de 2014

UMA OUTRA MULHER


 
Taiasmin Ohnmacht

 

 

− Não é isso que procuro. − folheia a revista com desinteresse. – Quero algo que me adivinhe.

− Eu te adivinho.

− Tu não sabe de onde eu venho.

− Mas sei pra onde quero te levar.

Ainda sente o cheiro dela em suas mãos. Enquanto aguarda o sinal verde, Samuel recorda os olhos azuis. Pouco importa se uma das lentes de contato caiu durante a transa. O corpo da jovem que chegou a sua loja procurando a Sétimo Sentido e terminou nua ao seu lado em um quarto de motel, era bastante real. E mesmo assim, inacreditável.

            Pela primeira vez percorre o caminho entre o estacionamento e o edifício onde mora sem praguejar contra a esposa e a escolha que ela fizera por um apartamento em edifício antigo, sem vaga de garagem; tudo para morarem próximos ao colégio de João.

Anda a passos lentos e despreocupados gozando o silêncio da noite e a rua vazia para reviver a tarde que tivera. Voltaria a ver aquela mulher? Qual era mesmo o seu nome? Não consegue lembrar, tem quase certeza de terem conversado apenas o suficiente para confirmarem o desejo mútuo.

            Ao aproximar-se da porta de seu apartamento, escuta vozes estranhas. Quem os estaria visitando àquela hora? Samuel só quer chegar em casa e se isolar. Estranha a dificuldade em girar a chave. Silvia teria deixado a chave na fechadura pelo lado de dentro para certificar-se da hora em que ele chegaria em casa? É ciumenta o suficiente para tal artimanha. Espera e a porta é aberta por um menino. Não sabe quem é aquela criança. Samuel vai entrando, o menino o olha assustado, a sala está diferente. O que Silvia andara fazendo? Quando abre a boca para chamá-la, uma voz feminina grita da cozinha:

− Gus, quem é na porta?

            Gus? Que voz é aquela? E Silvia? E João?

− Oi, sou eu. – Samuel falou um pouco confuso.

            Em seguida uma mulher aparece na sala, puxa o menino para perto de si e pergunta:

− O que o senhor quer?

− Oi, eu sou o Samuel, marido da Silvia. Onde ela está?

            A mulher treme levemente enquanto o menino se agarra a suas pernas.

− Não sei de quem o senhor está falando. Deve ser algum engano. – Em seguida ela grita – Gerson!

            Samuel recua até o corredor e confirma o número 203, de seu apartamento. O mesmo 3 que ele arrumou no dia seguinte à primeira noite dele e de Silvia na nova residência. Quando a fome os obrigou a saírem da cama, resolveram ir a um pequeno restaurante na mesma rua do edifício. Quando ele fechou a porta, percebeu que o 3 estava pendurado apenas pela parte de baixo, virado como a escrita espelhada de uma criança. Por muito tempo eles brincaram que veriam o 3 virado após cada noite de amor. Com o passar dos anos, a brincadeira perdeu a graça.

− Qual é, cara! Não entendeu o que minha mulher disse?

            A voz grave o faz voltar o olhar novamente para o interior do apartamento a tempo de ver um homem com a aparência de quem recém acordou fechar a porta, Samuel, zonzo, ainda tem forças para dizer que vai chamar a polícia, mas o homem, de dentro do apartamento, grita de volta idêntica ameaça.

            Samuel sai para a rua em busca de ar fresco. Em frente ao edifício, olha para as janelas, todas elas, dos três andares, olham para ele. Não reconhece um vizinho sequer. Pergunta-se onde está, a própria rua lhe parece estranha.

            Que horas são? Madrugada, certamente. Diante de todos os acontecimentos e após a oitava cerveja, o tempo é o que menos importa. Samuel está no bar vizinho ao prédio (onde mora?). Olha para o celular ao lado do copo, espantado pela inutilidade do aparelho em fazer ligações. A mensagem de número inexistente, quando tenta ligar para o telefone fixo de sua casa e a voz mecânica de Silvia, pedindo para deixar recado após o sinal, se tornam zombeteiras após a décima tentativa. Usa o iphone para entrar no facebook, olha o perfil de Silvia, que foto era aquela? Sim, é Silvia, mas ele não conhece a foto e algo captado por ela tornam aquela uma outra mulher, não a sua. Tem a vaga sensação de ter visto aquele olhar, em algum momento, mas não consegue recordar. De qualquer modo, não sabe descrever a pessoa com quem convive. Silvia é alguém com quem divide o dia-a-dia, costuma estar ali, eles facilitam a vida um do outro, mas agora ela não está e o mundo é um caos.

            Faz sinal a César, pedindo mais uma lata de cerveja. Pelo menos no bar tudo continua igual, o garçom é o mesmo e o reconhece. Volta a olhar intrigado para o celular, quando sente um perfume feminino, ergue a cabeça e vê ela que lhe estende a lata de cerveja e oferece um sorriso acolhedor. Samuel levanta-se da cadeira.

− Tu? Aqui?

            Ela, sem dúvida, embora com os olhos castanhos. Fica olhando para ele, sem nada dizer. Samuel a convida para sentar e beber.

− Eu não posso. – ela responde sem desfazer o sorriso tranquilo, vira-se e sai do bar.

            Samuel olha para César; ela trabalha no bar? Espera que alguém a impeça de deixar o lugar, mas César concentra-se em limpar as mesas recém liberadas. Decide sair correndo atrás dela que já se afastou uns 200 metros. Fica espantado com a distância que ela percorreu em tão pouco tempo.

− Vem comigo? – ela pergunta.

            Não parece necessário a Samuel responder, apenas caminha, tentando acompanhar o ritmo rápido. Tem medo de que ela evapore a qualquer momento. A noite permite todo tipo de dissolução. Ela chega ao carro estacionado na Protásio Alves, da zona leste para a zona sul. As luzes e sombras da cidade e a velocidade do carro o questionam sobre o tempo, mas as mãos dela no volante e no câmbio fazem com que ele esqueça todas as perguntas. Não há conversa, apenas a confiança de que existe algum lugar para onde ir.

            Estacionam em uma praia de Belém Novo, Samuel não reconhece o local, desde criança não voltava àquela região da cidade. Algumas vezes seu pai reunia a família para fazerem churrasco na praia do Leblon. Naquela época, ele e seus dois irmãos desciam do fusca em algazarra para banharem-se nas águas do Guaíba. Agora, ele escuta uma gira. Ela sai do carro e vai em direção à areia, ele olha com mais atenção adiante e vê o movimento de pessoas vestidas de branco próximas às águas do rio. Samuel a segue, ela junta-se ao grupo e canta os pontos. Não está completamente escuro, a iluminação da rua clareia um pouco a praia, a luz das velas contribui com o clima mágico. Ela está ainda mais linda, mas não é a única, há outras mulheres atraentes também. Uma parece estar incorporada. Dança e gira, com sua roupa vermelha, parece uma cigana. Um grupo de três homens dançam ao seu redor. O ritual é cheio de sensualidade. Samuel se aproxima do grupo. Silvia. Não é Silvia, é Silvia. Sente-se tonto, talvez desmaie, talvez vomite. Silvia/não-Silvia tem completo domínio do corpo e do ritmo, dança com confiança e prazer. Nunca a viu assim antes. O que estão fazendo com ele? Isso é uma armação? De quem? Ele se junta ao grupo e dança com a mulher – que pode ser a dele – e a deseja como se não fosse sua.

Alguém o segura firme pelo braço – Ela.

− Deixa. A gente tem que ser livre pra viver.

            Ela fala bem de perto a ele. Os lábios roçam sua orelha. Cheiro de Jasmim.

− Vamos.

            Segura-o firme, dessa vez pela mão. Ele a segue.

− Qual o teu nome?

− Eu sou filha de Iemanjá. E tu?

− Não sei. Ninguém nunca me disse.

            Ela parece divertir-se em conduzi-lo pela noite.

            Afastados do grupo, mas ainda escutando o cântico dos pontos, se amam no encontro da areia com o rio. Eles são parte da suave marola, causadores, causa, a própria coisa. Elementais.

            A água no rosto acorda Samuel, dessa vez não do rio, mas da chuva. O dia está cinza e apesar da garoa fina que cai sobre Porto Alegre, o mormaço continua. Ele olha ao redor e está só. De quando em quando, passa um carro pela avenida. Pega o celular, 6 horas. Levanta molhado, sujo. Ainda a roupa social de trabalho do dia anterior, agora irreconhecível. Anda um pouco e enxerga os restos do ritual da noite. Oferendas, entre elas uma garrafa de espumante. Pensa em pegar, precisa beber algo, mas desiste. Não se mexe no que é do santo.

            Encontra nos bolsos a carteira com documentos, cartões e dinheiro. Anda um pouco, pega lotação e ônibus procurando ignorar o olhar curioso de motoristas e passageiros. Chega ao edifício de três andares e olha para as janelas. Algumas abertas, outras não. A rua começa a movimentar-se na manhã de sábado. Em frente a porta do apartamento para e olha, coloca a chave com facilidade na fechadura e gira, mas sabe que não está voltando para casa.

 

sábado, 4 de janeiro de 2014

PERVERSÃO

Taiasmin Ohnmacht



desejo
palavras que não existem
quero perverter signos
delirar significados
torturar a letra em fogo
e criar perigosas curvas
de acidentes fonéticos
violências semânticas

subjugar a palavra
e matar a gramática
de vergonha