sexta-feira, 30 de agosto de 2013

TUDO O QUE HÁ PARA SABER






Taiasmin Ohnmacht

 

O corpo todo dolorido. Depois de três meses ele entendeu; há dores que não passam, mas talvez já soubesse disso.

            As coisas aconteceram, não escolheu, não provocou, mas foi obrigado a colocar um ponto final.

            Paulo olhou as paredes manchadas, restos de reboco e ferros aparentes. Sentado no chão frio e irregular, se viu com a caixa de cimento e a trolha reparando um mundo que desmoronava.

            Cheiro de mofo e suor. Era difícil dormir. Ao começar a adormecer, olhos e a boca carregados de maquiagem surgiam a sua frente. Então acordava e praguejava contra aquela mulher que o torturara. Se pudesse a mataria de novo.

            Uma única vez sonhou com o corpo forte do rapaz, os dois riam de alguma piada em um sonho reconfortante. Acordou assustado, como se os outros sete companheiros da cela soubessem de seus pesadelos. E todos dormiam, e todos sabiam. As dores no corpo voltaram a incomodar.

            No caminho para o pátio, Paulo olhava com indiferença os corredores e os funcionários armados. Ao ser atingido pela intensa luminosidade do espaço entre as galerias, lembrou a última vez que percorreu o caminho de volta do trabalho, com o martelo na mão e ódio suficiente para as dezenove marteladas desferidas na cabeça daquela bruxa. O fraco sol de inverno era incapaz de diminuir o frio em seu corpo.

            Naquele ambiente, ele se sentia exilado do mundo humano, mas também pensava que já vivia em exílio muito tempo antes, controlando olhares e desejos e sentindo o risco constante de ser humilhado. Temor concretizado com a chegada daquela mulher.

Um conjunto de cartas, copas e espadas. Ele conhecia canastra, mas não aquele jogo. Dependia dela e de suas palavras. Não sabia por que fora procurá-la. Todos no bairro falavam de seus poderes. Que poderes ela teria para ele? Já na primeira vez ficou impressionado. Em meio a baforadas de charuto ela falou de seu isolamento, de sua solidão, sem que ele precisasse dizer qualquer palavra. Saiu de lá sentindo ter-se encontrado.

Na cela, Paulo evitava olhar para os outros presos. Não que isso evitasse as surras. Às vezes, evitava as curras. Mas nada o fazia esquecer o rapaz que haviam colocado como seu ajudante na obra. Última lembrança de vida que tinha; os dois compartilhando trabalho, interesses e sexo, em um encontro inédito para ele.

A vida continuou dividida, mas um pouco mais fácil ou mais interessante. Até aquela feiticeira resolver destruí-lo. Em seu itinerário de ida e volta do trabalho ela sempre estava no portão, no início um sorriso enigmático. Um dia o convidou a entrar, falou que ele estava carregado, precisava de um passe. Depois as cartas. Paulo olhou para a boca vermelha e ouviu:

- Você tem uma pessoa especial em sua vida. Um rapaz jovem, moreno...negro.

            Quem havia contado para ela? Aquela mulher era o demônio? Só podia ser uma vaca de uma cigana, uma macumbeira! Confuso, disse que tinha um filho, todos no bairro sabiam que ele tinha um filho. Era perfeitamente crível que o rapaz especial fosse seu filho. Foi embora apressado. Com o passar das horas se acalmou. Pura coincidência. Ela não tinha como saber.

            Paulo lembrou o dia em que chegou preso. Todos sabiam. Ele não fazia ideia de como isso era possível, mas no presídio todos sabiam. A diferença era que ele não se importava mais.

            No início, a macumbeira foi sutil, apenas um pequeno sorriso. Depois, uma frase fora de contexto:

- A tua mulher não te dá o que tu gosta, né? - e deu uma gargalhada de vagabunda.

            Paulo mudou o caminho que fazia para não passar em frente da casa dela, mas moravam na mesma rua, nem sempre era possível evitá-la. Na maior parte das vezes ela não falava nada, o mais comum era um olhar zombeteiro. Apesar disso, vivia tenso, como um condenado a uma desgraça iminente.

- Tu não vem mais aqui? Eu tenho mais algumas coisas pra te dizer. Algumas até acho que tu ia gostar.

Não parou, tentando passar rápido em seu caminho para o trabalho, mas ela continuou:

- Que pressa! Acho que este trabalho está te sugando demais. Tenho que ir lá ver em quem tu tá trabalhando.

            Não suportava mais o deboche e a risada diabólica, mas a partir de então escutou algo mais, uma ameaça. Trabalhou o dia inteiro. Quase não falou com o rapaz. No final do dia, saiu da obra carregando o martelo.

            Paulo olhava as paredes cheias de bolor enquanto uma nova imagem surgia em sua mente. No interlúdio entre os gritos e o próprio choro, nas sessões de terror que vivia, imaginava-se com uma marreta nas paredes decrépitas que o continham.

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

HELENA


Taiasmin Ohnmacht 

então lá estava eu, no cais Mauá, pronto para embarcar no Catamarã. Cinquenta e sete anos e querendo reviver um amor. Nada mais piegas. No entanto eu precisava e aguardava com nervosismo e expectativa, fumando sem parar. De qualquer modo, Helena apareceu em bom momento, o mouse tremeu em minhas mãos quando vi sua solicitação de amizade no facebook. Seria a oportunidade de mostrar à Catarina o homem que eu ainda era, ou fui. Pelo menos à Catarina que habitava meus pensamentos e que destruiu meu autorrespeito.

            Enquanto esperava a embarcação, fiquei tentando lembrar aquele amor dos vinte anos. Recordei de alguns momentos, do som de sua voz e de quando tudo no corpo de um e de outro era descoberta, mas não conseguia lembrar a razão pela qual terminamos.

            O encontro foi marcado em Guaíba e era a primeira vez que fazia o trajeto pelo rio. Sentei na poltrona junto à janela me sentindo um pouco ridículo em estar tão ansioso para um encontro, considerando-se que sou quase um sessentão.

- Senhor, não pode fumar aqui.

            Demorei a perceber que era comigo e ainda me assustei ao ver um cigarro murcho entre meus dedos. Prontamente julguei ser este o motivo do meio sorriso no rosto do funcionário. Não havia lixeira próxima, joguei o cigarro no chão e fiquei com o pé em cima, na esperança que ninguém visse, mas escutei a mulher elegante sentada ao meu lado falar:

- Eu esperava mais de ti.

            Fiquei confuso, não sabia se ela falava comigo ou com alguma outra pessoa, pois não olhava para mim.

            Tentei fixar minha atenção na paisagem externa, tentando esquecer o que já parecia uma piada de mau gosto, mas a imagem da TV à frente insistia em chamar minha atenção. Um homem de camisa polo e um sorriso forçando simpatia, convidava:

- Venha você também!

            Os passageiros das primeiras fileiras imediatamente levantaram e começaram a entrar no aparelho de LCD. Uma senhora idosa precisou da ajuda de um rapaz para colocar o pé na parte inferior da tela, distante cerca de um metro do chão. Nem todos os passageiros foram; a mulher antipática ao meu lado não deu o menor sinal de que iria levantar, apenas mantinha seu ar de tédio.

            Eu resolvi ir, pensei que talvez fosse uma boa distração. Ao passar pela tela, fui recepcionado pelo homem que havia feito o convite para o inusitado passeio, mas agora ele trajava terno e gravata. No entanto, o que mais me perturbou foi o seu olhar.  Em seus olhos vi imagens minhas, feliz, comemorando vitórias que nunca conquistei e de posse de objetos que nunca tive. Com dificuldade, me desprendi daquela imagem, mas não vi mais meus companheiros de trajeto. Percebi uma paisagem iluminada por um sol pálido atrás de uma torre branca, olhei melhor e vi que, na verdade, tratava-se de uma grande vela acesa no horizonte. Um céu que pareceu cinza, ficava cada vez mais azul. Batidas de tambores distantes e cada vez mais próximos começaram a se pronunciar. Olhei a minha direita, havia um ovo gigantesco, de uns cinco metros de altura. Dele, saía uma procissão de pessoas em luto. Os passos acompanhavam o som das batucadas, os olhares eram tristes, mas nenhum caixão acompanhava o cortejo. Juntei-me a eles para entender o que estava acontecendo. Uma mulher, que chorava fartas lágrimas, apoiou-se em meu braço e se tornou minha companheira de caminhada. Andamos até a grande vela, o líder da caminhada virou-se para o grupo e fez um gesto cheio de firulas, em seguida os tambores iniciaram uma batida de samba e as pessoas que agora vestiam roupas coloridas, começaram a dançar em uma agitação tão intensa quanto à tristeza anterior. Eu mesmo passei a sentir uma inexplicável alegria e confiança.

-Enterramos A Noite. Agora um novo Dia chegou!

            O novo líder gritava enquanto dançava com todos. Procurei a mulher que tanto chorara em meu ombro. Não era Helena, muito menos Catarina. Logo a vi em um curto vestido colorido, longas pernas e seios nus. Sambava e sorria para mim, seu olhar era convidativo. Senti uma mão em meu ombro, era o mesmo funcionário do catamarã que havia zombado do meu cigarro.

- É melhor o senhor voltar ao seu lugar. Estamos chegando.

            O forte desejo de rever Helena me levou de volta à minha poltrona. Quando desci da tela da TV, reparei que vários lugares ocupados anteriormente estavam agora vazios. O funcionário pareceu compreender minha surpresa e falou:

- Alguns optaram por não voltar. Manteremos a TV desligada para reduzir os prejuízos da viagem.

            Não posso dizer que tenha entendido tudo o que ele falou, mas aproveitei para sentar-me longe da mulher desagradável que me acompanhou no início do percurso. Olhei para a água e ela era uma infindável língua com seus músculos tentando determinar o movimento da embarcação, a despeito da força dos motores. Com um movimento brusco, fomos atirados ao atracadouro de Guaíba. Todo nervosismo durou apenas até ver Helena. Algumas mulheres com o olhar pleno de expectativas, qualquer uma poderia ser ela. Seria uma delícia descobrir.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Algumas Doses

Taiasmin Ohnmacht


Um cineasta pra 2

Estou com a cabeça oca de imagens

Salta um cineasta, garçom

Um cineasta pra 2

 

Preciso entorpecer a visão

E não quero Almodóvar com macarrão

Prefiro começar com um Buñuel

Guria, já provaste um Kubrick?

Ou só ficaste no George Lucas?

Alguns amigos iniciaram pelo Spielberg

E depois caíram nas drogas.

Garçom, um Fellini!

Queremos ficar bem altos

Depois um Oshima, guria

Pois não estou nada santo

Eu até gosto do Allen,

Mas vamos terminar esse jantar

Brindando com o sangue do Tarantino

 

Garçom, não te demoras

Prometo gorjeta em Coppolas

Um cineasta pra 2