sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

PEQUENOS




Taiasmin Ohnmacht

 
 

I
 
Forja um grito
Porque na calma
Não se vê sangue
 
II
 
vi o dia amanhecer
Nela
 
III
 
Pelo respeito
O peito exposto
Aponta e aposta
 
IV
 
A água escorre pelo vidro
E a cidade já não é a mesma
Urbanidade Dalí
Eu saio e me distorço
 
V
 
O lençol florido
Amarfanhado
Zomba da primavera
E protege os ouvidos
Do zumbido das abelhas



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

PARA QUEM QUER SE LANÇAR


Taiasmin Ohnmacht

 

 

É abordada no Bom Fim. Um homem vesgo e um cartão. A direção da mão dirime a dúvida diante do olhar.

            Micail do Nascimento – Socorrologista

            Aline pega o cartão impressionada com as profundas rugas de um rosto mais mal cuidado do que velho.

- Alguém me odeia. – fala sem perceber que fala.

- Tudo é relativo.

            Aline é conduzida por Micail até seu consultório. O branco irreal das paredes, piso e móveis é quebrado por pirâmides douradas, em teto e cantos.

- Tu não pode me ajudar. Eu preciso que alguém morra. – na voz dela, apenas decepção.

- Eu só faço partos.

            Por já estar lá e não ter opção melhor, ela se deixa deitar no tapete imensamente branco, a cabeça encaixada em uma estrutura piramidal. Antes de liberá-la, Micail receita toalha úmida na cabeça e arroz selvagem. Aline fica mais esperançosa, lembra sua avó lhe dizendo não haver ganho sem sacrifício.

- Dentro de uma semana sua vida será outra, mas não esqueça; a toalha tem que estar sempre úmida.

            Aline ficou imaginando o que poderia mudar na sua vida se não houvesse uma morte. Por via das dúvidas e a despeito dos olhares curiosos, passou a usar a toalha molhada como gorro. Difícil mesmo foi o arroz. O intestino começou a funcionar com regularidade, mas isso não chegou a mudar sua vida.

            Após o terceiro dia de tratamento, ganhou um passeio de monomotor sobre o Guaíba. Sorteio de um galeto paroquial ao qual nunca foi. Contente, passou a umedecer ainda mais a toalha.

            Emocionada com o primeiro voo de sua vida, nem percebeu quando o único motor parou de funcionar. O piloto agitado começou a gritar. Quando Aline entendeu o que estava acontecendo, olhou para o rosto apavorado de seu condutor, lembrou de Micail e o amaldiçoou. Resolveu pular do monomotor, só para ter o prazer de fazer a última escolha da vida. Em sua queda, foi subitamente puxada para cima. Havia um paraquedas em sua cabeça. E ele estava seco. Pousou os pés no chão com delicadeza, mas aí já era outra. E no solo saiu andando Renata.

 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

INSEPULTA


Taiasmin Ohnmacht

 

Abriu os olhos. Nada. O teto branco, um pequeno ventilador e a certeza de estar em seu quarto. Seria o dia seguinte à ontem ou algum outro? Levantou do chão, olhou a bagunça ao redor sem qualquer emoção. Sentiu o cheiro forte de álcool. Nem enjoo, nem desejo. Estava morta. Então, chegou o dia tão anunciado por todos que se preocupavam com ela. Andou pelo apartamento, mas nada lhe pertencia. Viu a filha dormir no quarto ao lado e sentiu apenas a sensação de nada mais poder fazer, se não confirmar a própria morte. Saiu para a rua, sentiu a aragem da noite como algo estrangeiro à pele. Ela andava, olhava, escutava como se viva fosse, mas o corpo estava oco e transitava em um automatismo sem qualquer significado ou pertença. Imaginava que morrer fosse virar um espírito, mas morta estava reduzida a um corpo.

            Em seu ventre algo se agitava. Seriam as larvas devorando sua alma? A alma habitava o útero ou o intestino? Passou por um grupo de pessoas que sugavam a madrugada, mas se percebia mais próxima da poeira e das pedras. Ansiava pelo momento em que se tornaria completamente inanimada. Exilada da vida, talvez exalasse o cheiro de uma carne pútrida, agitada pela fome da morte. Até os pensamentos eram cada vez mais podres.

            Tudo se movimentava dentro dela e não era ela. Nada mais tinha importância no mundo, exceto a última ceia que oferecia. Em um boteco, segurava cálice de vinho tinto, último brinde para acalmar os vermes.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

VIGÍLIA

 
 



Taiasmin Ohnmacht

 

Suponhamos que ele me pegue. Quando criança, achava que as bonecas brincavam enquanto eu dormia. Jamais consegui surpreendê-las em seus folguedos, mas a ideia de que muitas coisas podem acontecer quando fecho os olhos nunca me abandonou.

            Roberto reclamava de minhas horas insones. Desconfiava de meu perambular noturno. Era sentir que eu levantava da cama, para que ele parasse de roncar. Se eu ligasse a luz, era briga certa. Sua ambição era subjugar meu ritmo biológico. Agora, olho para o relógio e sinto um prazer extra em ver que são três horas da manhã e a luz está acesa. Olho com deboche para cima da cômoda.

            Acordada sempre me surpreendo com o tamanho da noite e em nenhum outro momento me sinto tão sozinha. O lado bom é que posso pensar tranquilamente em Cássio. Em meio aos cobertores e travesseiros, eu me aninho no quentinho e penso em seu corpo. O desenho da linha de encontro entre nuca e pescoço, as unhas arredondadas, a forma dos joelhos marcando as calças. Durante todo o dia fico lutando para dissimular meus olhares, mas agora não preciso. Nenhum colega de trabalho para despistar. Essas horas são só minhas. E não há canto escuro no quarto.

            Nunca tenho saudade, ele não se foi como era o esperado. Tenho pensado até em convidar Cássio para vir a minha casa e transarmos nesta cama. Quem sabe mato Roberto em definitivo. Mas, e se no obscurecimento do prazer, enquanto meus olhos forem só de Cássio, será que Roberto não irá se levantar das cinzas e devorar nossos sexos para recompor a própria carne? Rapidamente olho para a urna. Impressão minha ou se mexeu um pouco?

sábado, 5 de outubro de 2013

LUGARES






LUGARES
 
Taiasmin Ohnmacht

 

Silvana nasceu pronta, apenas para ser reconhecida e sua superioridade confirmada.

Certa vez no cabelereiro, enquanto fazia mechas descoloridas em fios castanhos claros e fungava ruidosamente por causa de uma rinite alérgica, descobriu-se sentada ao lado da comissária de bordo que tomou o seu lugar na escala internacional.

- Escondendo (fungada) os brancos? - o tom era de um comentário qualquer, conversa vazia de salão de beleza. Silvana fazia boas encenações, sobretudo para si mesma.

- Eu tenho poucos – a comissária passou a mão nos cabelos, evitando olhar para a ex-colega - prefiro o meu cabelo mais escuro.

- É, a gente começa assim (fungada), mas a verdade é que eles só querem guriazinhas. Primeiro é o cabelo, depois botox. Uma puxadinha aqui, outra ali, mas não adianta, eles te sugam (fungada) e jogam fora o bagaço. Competência? Não querem nem saber! Quantos anos tu tem?

- Trinta e dois.

            As poucas palavras poderiam matar o assunto, mas não para Silvana.

- Ah, mais uns cinco ou oito anos. Mais uns cinco, né amor? Eu só durei tanto por que era muito (fungada) competente e, mesmo assim... Isso que eu trabalhava em péssimas condições, a pressurização, o ar, tudo, só agravou minha saúde (fungada forçada). Ah, mas eles vão me pagar! Coloquei na justiça! – quando terminou a frase já estava fanha.

            É bem verdade que todos se incomodavam com os ruídos de Silvana pontuando o discurso pronto e repetitivo de sua profissão, mas houve algo a mais que ela esqueceu; resolveu ir a uma festa em Amsterdã, mesmo com voo marcado para as seis e trinta da manhã do dia seguinte. Embora completamente fanha, até trabalhou bem durante o embarque, mas depois da decolagem caiu em um sono profundo do qual só foi acordada com dificuldade. Mas, creiam, ela esqueceu.

 

            Ir ao banco, sacar o auxílio desemprego, depositá-lo em outra conta para cobrir um empréstimo, depois atravessar a cidade até a zona norte rumo a mais uma entrevista de emprego. Com tudo esquematizado, Silvana chegou ao banco, mas o horário próximo do almoço e o mês em seu início não contribuíram muito, ela resignou-se a enfrentar uma longa fila.

            Seis caixas eletrônicos, um não fazia saque e estava vazio. Um caixa em teste, um com saque desabilitado e os outros três desejadíssimos, ocupados por pessoas ocupadas em pagar contas. Observar todo o movimento fazia com que Silvana esquecesse um pouco a coceira no nariz, cada vez mais forte. Felicitou-se por ter saído com tempo de casa.

            Vigilante dos espaços, dava um leve toque no senhor a sua frente a cada vez que a fila andava e ele não cumpria com a obrigação de colar no próximo da fila. Alertá-lo para o movimento necessário era, para ela, um favor a si mesma e a todos que aguardavam a vez atrás dela.

            Olhava com inveja e indignação para os idosos que não participavam da longa espera e a brabeza crescia quando o estagiário priorizava o atendimento deles, todos com anos acumulados em contas a saldar de outros. Nessa altura, ela já dava pequenos espirros e uma das narinas estava trancada. Não era adepta de nenhuma crença, mas resolveu ter apenas pensamentos positivos na tentativa de suportar a situação. Foi bem sucedida por alguns minutos durante a quase meia hora de espera.

            Silvana se animou quando chegou a sua vez e percebeu que o senhor, agora no único caixa que funcionava, faria apenas um saque. Poucos instantes antes houve um burburinho generalizado entre os clientes do banco, pois dois caixas entraram em manutenção e a fila lenta ficou algo menos que isso. O estagiário procurou tranquilizar a todos, seria um transtorno breve, apenas para abastecer as máquinas de dinheiro. A indignação perdeu corpo, restando apenas uma intranquilidade difusa.

            O senhor saiu e ela chegou à máquina, o cartão de seu benefício em mãos. O caixa eletrônico raciocinava com indolência, talvez fosse o excesso de solicitações do dia, mas Silvana não perdoou, começou a bater na máquina e a olhar para o estagiário o convocando para alguma atitude. Como que revoltado, o caixa apagou a tela de atendimento inicial e passou a exibir em grandes letras: EQUIPAMENTO EM MANUTENÇÃO. Houve um breve momento em que quase chegou às lágrimas. Era como uma confirmação do que, em seu íntimo, sempre suspeitou, havia uma conspiração mundial para sacaneá-la, as pessoas não conseguiam conviver com alguém tão cheia de qualidades quanto ela, e agora nem as máquinas. Dizem que os animais acabam por assumir uma personalidade semelhante a de seus donos, será que os aparelhos eletrônicos também? E se os caixas eletrônicos entendessem que os clientes é que estavam a seu serviço e não o contrário?

- Eu sou cliente! – ela gritou – Eu sou (fungada) cliente e quero meu direito de ser (fungada) atendida!

            Silêncio. Todos olhavam para Silvana.

- Tu – apontou para o estagiário – tu mesmo, vem aqui e faz (fungada) esse troço funcionar.

            Algumas pessoas acompanhavam a cena com expectativa, e muitas outras gritavam palavras de apoio e de protesto.

-Olha aqui, rapazinho, tu vai lá dentro chamar o (fungada) gerente e diz para ele que tem clientes que exigem (fungada) ser atendidos.

            Ela gritava, agora estimulada pelo grupo de pessoas que também aguardavam. O estagiário estava constrangido e assustado, quase encostado na parede oposta aos caixas eletrônicos. Dois seguranças não sabiam se mantinham suas posições na porta giratória ou saíam para inibir a agitação liderada por Silvana.

- Esse (fungada) banco vive dos nossos impostos, das taxas abusivas sobre nosso dinheiro!

            Cada palavra dela levava as pessoas a uma explosão de indignação. Outras falas, não tão organizadas, mas altas o suficiente para ela escutar iam abastecendo-a de argumentos.

            O estagiário sumiu banco adentro, mas logo foi substituído por um funcionário que garantiu pronto restabelecimento do atendimento. Silvana escutou um barulho atrás da divisória que protege os fundos dos caixas eletrônicos, olhou para a tela e ela estava reiniciando. Preparou-se para sua vez.

            Agora com quatro dos seis caixas funcionando, as queixas eram esparsas, alguns clientes recém chegados na agência nem tomaram conhecimento do pequeno tumulto. Silvana terminou todas suas transações liberando o atendimento para a pessoa seguinte, começou a ser aplaudida pelos que haviam se sentido representados. Abanou para todos com um largo sorriso. Pensou que seria bom falar alguma coisa.

- Nós somos fortes, temos que mostrar para eles que o banco (espirro) é nosso!

            Olhares confusos, olhares de aprovação, mas a maior parte dos olhares divididos entre o próximo da fila e o relógio.

            Silvana deu uma fungada e saiu do banco. Orgulhosa de si, entendeu toda a situação como uma confirmação de seu valor. Era uma líder. Quem sabe uma carreira política ou sindical?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

FIM DO MUNDO

Resultado de imagem para homem e mulher briga




Taiasmin Ohnmacht


Às vinte e duas e quarenta e cinco da noite de quarta-feira, toca o telefone:

- Alô?

- Seu Marco? É a Suzi do 601.

- Sim, dona Suzi?

- Eu quero reclamar. Tem vizinho que está desrespeitando o horário de silêncio.

- Festa?

- Não! É essa maldita mania que vocês homens tem de achar que nada é mais importante do que futebol! Aí, mesmo quem não se interessa tem que ficar escutando, ainda mais nesse volume. Toda quarta é a mesma coisa! Qualquer dia me irrito e faço uma besteira.

            Marco olhou a própria tv, expectativa diante da cobrança de um escanteio para seu time. Baixou o volume.

- Calma dona Suzi. Eu falo com o morador. Qual é o apartamento?

- 601.

Silêncio.

- Como, dona Suzi?

- 601.

- Desculpa, acho que não entendi. 601 é o seu apartamento.

- Isso mesmo.

- Por que a senhora mesmo não abaixa?

- É o Ariovaldo. Eu não aguento mais. Isso não é hora de escutar tv tão alto!

- Mas ele é o seu marido!

- Ah, tá! Agora eu tenho que pagar por isso?!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

TUDO O QUE HÁ PARA SABER






Taiasmin Ohnmacht

 

O corpo todo dolorido. Depois de três meses ele entendeu; há dores que não passam, mas talvez já soubesse disso.

            As coisas aconteceram, não escolheu, não provocou, mas foi obrigado a colocar um ponto final.

            Paulo olhou as paredes manchadas, restos de reboco e ferros aparentes. Sentado no chão frio e irregular, se viu com a caixa de cimento e a trolha reparando um mundo que desmoronava.

            Cheiro de mofo e suor. Era difícil dormir. Ao começar a adormecer, olhos e a boca carregados de maquiagem surgiam a sua frente. Então acordava e praguejava contra aquela mulher que o torturara. Se pudesse a mataria de novo.

            Uma única vez sonhou com o corpo forte do rapaz, os dois riam de alguma piada em um sonho reconfortante. Acordou assustado, como se os outros sete companheiros da cela soubessem de seus pesadelos. E todos dormiam, e todos sabiam. As dores no corpo voltaram a incomodar.

            No caminho para o pátio, Paulo olhava com indiferença os corredores e os funcionários armados. Ao ser atingido pela intensa luminosidade do espaço entre as galerias, lembrou a última vez que percorreu o caminho de volta do trabalho, com o martelo na mão e ódio suficiente para as dezenove marteladas desferidas na cabeça daquela bruxa. O fraco sol de inverno era incapaz de diminuir o frio em seu corpo.

            Naquele ambiente, ele se sentia exilado do mundo humano, mas também pensava que já vivia em exílio muito tempo antes, controlando olhares e desejos e sentindo o risco constante de ser humilhado. Temor concretizado com a chegada daquela mulher.

Um conjunto de cartas, copas e espadas. Ele conhecia canastra, mas não aquele jogo. Dependia dela e de suas palavras. Não sabia por que fora procurá-la. Todos no bairro falavam de seus poderes. Que poderes ela teria para ele? Já na primeira vez ficou impressionado. Em meio a baforadas de charuto ela falou de seu isolamento, de sua solidão, sem que ele precisasse dizer qualquer palavra. Saiu de lá sentindo ter-se encontrado.

Na cela, Paulo evitava olhar para os outros presos. Não que isso evitasse as surras. Às vezes, evitava as curras. Mas nada o fazia esquecer o rapaz que haviam colocado como seu ajudante na obra. Última lembrança de vida que tinha; os dois compartilhando trabalho, interesses e sexo, em um encontro inédito para ele.

A vida continuou dividida, mas um pouco mais fácil ou mais interessante. Até aquela feiticeira resolver destruí-lo. Em seu itinerário de ida e volta do trabalho ela sempre estava no portão, no início um sorriso enigmático. Um dia o convidou a entrar, falou que ele estava carregado, precisava de um passe. Depois as cartas. Paulo olhou para a boca vermelha e ouviu:

- Você tem uma pessoa especial em sua vida. Um rapaz jovem, moreno...negro.

            Quem havia contado para ela? Aquela mulher era o demônio? Só podia ser uma vaca de uma cigana, uma macumbeira! Confuso, disse que tinha um filho, todos no bairro sabiam que ele tinha um filho. Era perfeitamente crível que o rapaz especial fosse seu filho. Foi embora apressado. Com o passar das horas se acalmou. Pura coincidência. Ela não tinha como saber.

            Paulo lembrou o dia em que chegou preso. Todos sabiam. Ele não fazia ideia de como isso era possível, mas no presídio todos sabiam. A diferença era que ele não se importava mais.

            No início, a macumbeira foi sutil, apenas um pequeno sorriso. Depois, uma frase fora de contexto:

- A tua mulher não te dá o que tu gosta, né? - e deu uma gargalhada de vagabunda.

            Paulo mudou o caminho que fazia para não passar em frente da casa dela, mas moravam na mesma rua, nem sempre era possível evitá-la. Na maior parte das vezes ela não falava nada, o mais comum era um olhar zombeteiro. Apesar disso, vivia tenso, como um condenado a uma desgraça iminente.

- Tu não vem mais aqui? Eu tenho mais algumas coisas pra te dizer. Algumas até acho que tu ia gostar.

Não parou, tentando passar rápido em seu caminho para o trabalho, mas ela continuou:

- Que pressa! Acho que este trabalho está te sugando demais. Tenho que ir lá ver em quem tu tá trabalhando.

            Não suportava mais o deboche e a risada diabólica, mas a partir de então escutou algo mais, uma ameaça. Trabalhou o dia inteiro. Quase não falou com o rapaz. No final do dia, saiu da obra carregando o martelo.

            Paulo olhava as paredes cheias de bolor enquanto uma nova imagem surgia em sua mente. No interlúdio entre os gritos e o próprio choro, nas sessões de terror que vivia, imaginava-se com uma marreta nas paredes decrépitas que o continham.

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

HELENA


Taiasmin Ohnmacht 

então lá estava eu, no cais Mauá, pronto para embarcar no Catamarã. Cinquenta e sete anos e querendo reviver um amor. Nada mais piegas. No entanto eu precisava e aguardava com nervosismo e expectativa, fumando sem parar. De qualquer modo, Helena apareceu em bom momento, o mouse tremeu em minhas mãos quando vi sua solicitação de amizade no facebook. Seria a oportunidade de mostrar à Catarina o homem que eu ainda era, ou fui. Pelo menos à Catarina que habitava meus pensamentos e que destruiu meu autorrespeito.

            Enquanto esperava a embarcação, fiquei tentando lembrar aquele amor dos vinte anos. Recordei de alguns momentos, do som de sua voz e de quando tudo no corpo de um e de outro era descoberta, mas não conseguia lembrar a razão pela qual terminamos.

            O encontro foi marcado em Guaíba e era a primeira vez que fazia o trajeto pelo rio. Sentei na poltrona junto à janela me sentindo um pouco ridículo em estar tão ansioso para um encontro, considerando-se que sou quase um sessentão.

- Senhor, não pode fumar aqui.

            Demorei a perceber que era comigo e ainda me assustei ao ver um cigarro murcho entre meus dedos. Prontamente julguei ser este o motivo do meio sorriso no rosto do funcionário. Não havia lixeira próxima, joguei o cigarro no chão e fiquei com o pé em cima, na esperança que ninguém visse, mas escutei a mulher elegante sentada ao meu lado falar:

- Eu esperava mais de ti.

            Fiquei confuso, não sabia se ela falava comigo ou com alguma outra pessoa, pois não olhava para mim.

            Tentei fixar minha atenção na paisagem externa, tentando esquecer o que já parecia uma piada de mau gosto, mas a imagem da TV à frente insistia em chamar minha atenção. Um homem de camisa polo e um sorriso forçando simpatia, convidava:

- Venha você também!

            Os passageiros das primeiras fileiras imediatamente levantaram e começaram a entrar no aparelho de LCD. Uma senhora idosa precisou da ajuda de um rapaz para colocar o pé na parte inferior da tela, distante cerca de um metro do chão. Nem todos os passageiros foram; a mulher antipática ao meu lado não deu o menor sinal de que iria levantar, apenas mantinha seu ar de tédio.

            Eu resolvi ir, pensei que talvez fosse uma boa distração. Ao passar pela tela, fui recepcionado pelo homem que havia feito o convite para o inusitado passeio, mas agora ele trajava terno e gravata. No entanto, o que mais me perturbou foi o seu olhar.  Em seus olhos vi imagens minhas, feliz, comemorando vitórias que nunca conquistei e de posse de objetos que nunca tive. Com dificuldade, me desprendi daquela imagem, mas não vi mais meus companheiros de trajeto. Percebi uma paisagem iluminada por um sol pálido atrás de uma torre branca, olhei melhor e vi que, na verdade, tratava-se de uma grande vela acesa no horizonte. Um céu que pareceu cinza, ficava cada vez mais azul. Batidas de tambores distantes e cada vez mais próximos começaram a se pronunciar. Olhei a minha direita, havia um ovo gigantesco, de uns cinco metros de altura. Dele, saía uma procissão de pessoas em luto. Os passos acompanhavam o som das batucadas, os olhares eram tristes, mas nenhum caixão acompanhava o cortejo. Juntei-me a eles para entender o que estava acontecendo. Uma mulher, que chorava fartas lágrimas, apoiou-se em meu braço e se tornou minha companheira de caminhada. Andamos até a grande vela, o líder da caminhada virou-se para o grupo e fez um gesto cheio de firulas, em seguida os tambores iniciaram uma batida de samba e as pessoas que agora vestiam roupas coloridas, começaram a dançar em uma agitação tão intensa quanto à tristeza anterior. Eu mesmo passei a sentir uma inexplicável alegria e confiança.

-Enterramos A Noite. Agora um novo Dia chegou!

            O novo líder gritava enquanto dançava com todos. Procurei a mulher que tanto chorara em meu ombro. Não era Helena, muito menos Catarina. Logo a vi em um curto vestido colorido, longas pernas e seios nus. Sambava e sorria para mim, seu olhar era convidativo. Senti uma mão em meu ombro, era o mesmo funcionário do catamarã que havia zombado do meu cigarro.

- É melhor o senhor voltar ao seu lugar. Estamos chegando.

            O forte desejo de rever Helena me levou de volta à minha poltrona. Quando desci da tela da TV, reparei que vários lugares ocupados anteriormente estavam agora vazios. O funcionário pareceu compreender minha surpresa e falou:

- Alguns optaram por não voltar. Manteremos a TV desligada para reduzir os prejuízos da viagem.

            Não posso dizer que tenha entendido tudo o que ele falou, mas aproveitei para sentar-me longe da mulher desagradável que me acompanhou no início do percurso. Olhei para a água e ela era uma infindável língua com seus músculos tentando determinar o movimento da embarcação, a despeito da força dos motores. Com um movimento brusco, fomos atirados ao atracadouro de Guaíba. Todo nervosismo durou apenas até ver Helena. Algumas mulheres com o olhar pleno de expectativas, qualquer uma poderia ser ela. Seria uma delícia descobrir.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Algumas Doses

Taiasmin Ohnmacht


Um cineasta pra 2

Estou com a cabeça oca de imagens

Salta um cineasta, garçom

Um cineasta pra 2

 

Preciso entorpecer a visão

E não quero Almodóvar com macarrão

Prefiro começar com um Buñuel

Guria, já provaste um Kubrick?

Ou só ficaste no George Lucas?

Alguns amigos iniciaram pelo Spielberg

E depois caíram nas drogas.

Garçom, um Fellini!

Queremos ficar bem altos

Depois um Oshima, guria

Pois não estou nada santo

Eu até gosto do Allen,

Mas vamos terminar esse jantar

Brindando com o sangue do Tarantino

 

Garçom, não te demoras

Prometo gorjeta em Coppolas

Um cineasta pra 2

terça-feira, 30 de julho de 2013

MUDANÇA DE DIREÇÃO


Taiasmin Ohnmacht 



Cristiano andava apreensivo. Não queria ir aquele jantar. Sentia-se caminhando para um fim não desejado. Deveria haver algum modo de ficar surdo de uma hora para outra, então não precisaria escutar a dureza das palavras.

            Enquanto caminhava para pegar o carro, repetia para si mesmo, como se fosse um mantra, que nada mudaria o fato dela ser sua mulher. Não sabia como encará-la. Pela manhã, vira apenas morte em seus olhos, nenhuma lágrima, nenhum abatimento, tampouco existia a versão em que ela lhe implorava para que ele não a deixasse. No fundo, sempre soube estar mais próximo das súplicas do que ela.

            Conduzia seu carro em curvas alternadas de vítima e algoz. Aclives de justificativas, declives de arrependimentos. Não, ele não conduzia nada, era ela quem dirigia, quem determinava todos os rumos. Com raiva, sentiu-se impotente; um menino sem o direito de gozar sua travessura. Algo dentro de si rebelou-se, mas logo foi abafado por saber-se incapaz de ficar sozinho. Podia desejar outras, não podia viver sem ela. Era um viciado na iminência brutal de não poder mais se dar ao consumo. Se isso acontecesse, não sabia o que sobraria de si.

            Cristiano começou a planejar um novo caminho, concordaria com tudo o que ela dissesse. Seria humilde, assumiria ter errado, daria a ela todo o direito à raiva, à vingança, até ao silêncio e, se fosse preciso pediria, suplicaria, choraria seu perdão. Contudo, não se tratava de uma estratégia, mas de uma necessidade.

            Tenso, entrou no restaurante. Ela já estava lá e, para seu espanto, parecia nervosa. Não havia sinal da deusa fria e distante que ele imaginara encontrar. Enfim, Cristiano começou a sentir-se um pouco mais confiante. Pediu ao garçom o vinho preferido deles e ao sabor do qual tantas noites haviam se amado. Ela evitava olhá-lo nos olhos e isso também lhe pareceu bom sinal. Ela não estava no controle. Mesmo assim, o discurso ainda era dela. Tudo bem, ele pensou, tinha até curiosidade.

- Cris, a gente está casado há muito tempo. Não é fácil pra mim também. Quando tu fala que o que aconteceu nada teve a ver com amor, eu acredito. Também tenho meus desejos e mesmo assim te amo. - comovido, Cristiano segurou as mãos dela, com carinho – Não sei como te dizer isso, espero que compreendas, mas...essa moça, será que ela aceitaria um ménage a trois?

            Cristiano ficou surdo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

DE CONTABILIDADES E RISCOS


Taiasmin Ohnmacht
 
Diariamente
Acordar às 7:30, suado no verão e sem vontade de levantar no inverno.
 
Pela manhã:
 
Abrir as gavetas
Tirar as baratas
Olhar os e-mails
Ler contratos
Conferir
Carimbar
Assinar
 
Almoço: arroz, feijão, bife e salada. Às vezes, massa.
 
À tarde:
 
Abrir as gavetas
Tirar as baratas
Olhar os e-mails
Ler contratos
Conferir
Carimbar
Assinar
 
Em momentos de diversão, encontrava-se com os colegas nas comemorações da empresa ou conversas em mesas de bar. Então:
 
Problemas de trabalho
Aposentadoria
Fofocas de trabalho
Mudanças no trabalho
Aposentadoria
 
E ele contava os anos, somava os anos, diminuía os anos.
 
Aos 30 anos, jantar com a família. Aos 40, uma refeição leve. E o tempo amealhando conquistas, dissipando conquistas.
 
O homem das justas medidas cotidianas, à noite transbordava em ousadias e ânsias, cultivava abismos secretos, mas ao amanhecer postergava seu desejo de vida para um outro dia, talvez.
 
Até insinuar-se um intruso
 
Abrir gavetas, tirar as baratas, urinar, olhar e-mails, urinar, ler contratos, urinar, conferir, urinar, carimbar, urinar, assinar, urinar.
 
Aos 48 anos, refeição leve, sentir dor, tentar urinar, poucas gotas, vontade premente.
O glossário médico nomeou o intruso, instalado e resoluto.
 
Não havia mais tempo a contabilizar. Era dia ainda, mas saltou para seus abismos e deu paz às baratas.

domingo, 14 de julho de 2013

TREZENTAS ONÇAS E ALGUNS PENSAMENTOS


 
Taiasmin Ohnmacht

 

Conto escrito em 2012, em homenagem ao centenário da publicação do livro

 Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto.

 

Muitos livros sobre a cama. Época de provas. Na escrivaninha, Cassandra se debruçava sobre um deles, em suas páginas figuras de estruturas cerebrais expostas. Quantas palavras a decorar! Córtex, lobo parietal, astrócitos.

Desanimada e pouco concentrada, Cassandra começou a divagar. Pensou no convite que recebeu de Mônica, colega de trabalho, para ir a um CTG. Não sabia dançar vanerão, xote ou qualquer dança típica, mas não era a primeira vez que ia a um baile gauchesco, sempre divertidos.

Lembrou-se de palavras como cusco, zaino, guaiaca e da professora Alice, exigindo a leitura de Simões Lopes Neto, ainda na época do colégio. Cassandra a odiou a cada palavra que não entendeu do texto. Chegou a pensar na possibilidade de não ler o conto. No entanto, foi insistindo, atropelando as palavras desconhecidas e buscando o contexto. De repente:

“(...) não senti na cintura o peso da guaiaca!”

Algo fisgou Cassandra.

“Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava (...)”

A leitura se tornou ávida e, paralela à desventura do personagem, ela foi lembrando-se de um momento da sua própria vida, quando reuniu o dinheiro de vários colegas e comprou comes e bebes para a comemoração de fim de ano. A sensação horrível e jamais esquecida de olhar para a carteira vazia no momento de pagar a conta. Confusão, pânico e vergonha.

Cassandra foi roubada, sempre suspeitou de algum colega do colégio mesmo. Em nenhum momento passou a ideia dramática do suicídio por sua cabeça, mas foi Pedro, seu pai, quem garantiu um final honroso ao caso, repondo o dinheiro roubado.

- Suicídio, cabeça, tiro...Ah, estruturas cerebrais! Onde eu estava com a cabeça? Preciso estudar. – pensou Cassandra.

A sua frente, focou novamente a anatomia que se apresentava em formas e termos estranhos.

Bom, na época, ela conseguiu terminar de ler o conto, e com prazer, o que era melhor. Pensou em quanto tempo não fazia uma boa leitura. Levantou, foi até a estante e encontrou o livro. Que boa sensação tê-lo nas mãos! Sabia que tinha de estudar, mas seria bem rapidinho. Afastou os livros técnicos, deitou na cama, ligou a luz de cabeceira e

“Eu tropeava, nesse tempo.”

quinta-feira, 27 de junho de 2013

IMAGENS

O vento corre
e o tempo não para.
Vamos numa estrada acelerada
sem qualquer zona de conforto.
Se aproxima o confronto
entre judeus, americanos e árabes
e Deus não entende
como foi convocado para tal guerra.
O amor foge por entre os dedos,
se concentra no espelho.
Os teus olhos são cegos por reflexos
de um monitor de imagens velozes.
A inteligência é artificial,
enfim, um bom conceito para tal.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

ESCONDERIJOS


Taiasmin Ohnmacht

 


Que gata? Ou foi um equívoco ou pura sacanagem. Grande coisa! Nem toda ordem é para ser cumprida. E ele sentou entre os carros e começou a fumar. De quanto tempo precisaria para fazer parecer que procurou? Ainda disseram, não mata, nem judia. Não é qualquer vira-lata. Incomoda, mas é a persa da moradora do 301. É claro que ele não iria feri-la, sequer iria caçá-la!

Moradores começaram a encontrar restos de comida junto ao carro e dentro do capô. A adolescente do 301 comunicou ao condomínio que sua gata branca fugira do apartamento e pediu que ajudassem a encontrá-la. Logo a gata passou a ser a primeira suspeita.

Pouco importa, quem está preocupado com gatos e carros? Cada um que se vire com seus problemas. Ele fora contratado apenas como porteiro da noite. Uma noite sim, uma não. Identificando pessoas e veículos e esperando as horas passarem. Ninguém falou em gatos, tinha que se preocupar apenas com gatunos, o que já era trabalho suficiente!

Pelo menos a tarefa permitiu a ele fumar um bom cigarro e se desligar das noites de vigília. Nada para olhar e ninguém para vê-lo. Por que a gata? Teriam encontrado um pelo branco para incriminá-la? Poderia ser um rato. Se fosse no seu carro, estacionado na frente de sua casa, pensaria primeiro em um rato. De qualquer modo, a verdade era que estava ali tranquilo, em plena madrugada e fumando o seu cigarrinho.

Ele gostava de identificar os carros, as marcas, apreciava as cores e os modelos. Na garagem, olhava-os pensando em quanto dinheiro estaria ali guardado. Fosse gato ou não, tinha bom gosto. Melhor estar no motor de uma daquelas máquinas do que na cama de uma adolescente chata. Quer dizer, mais ou menos, na verdade com a vigilância de sua esposa e a anêmica renda, não teria nem um daqueles carros, nem a cama de qualquer outra mulher.

Olhou o relógio, melhor voltar. Levantou-se e sentiu uma vontade irresistível de urinar. Mirou na roda do Mercedes Benz, mais uma na conta da gata.